senhor cego mercado

Dois mergulhos

Às vezes paro pra pensar, mergulhar com esse frio? Jamais. Para alguns, nem é preciso se molhar. Saindo do trabalho, atrasado pra chegar na faculdade, vejo um deficiente visual (DV) tateando a calçada em frente ao mercado. Perguntei se precisava de ajuda. Muito educado, disse que sim, que aquela era a terceira vez no dia que vinha ao mercado. Perguntei o porquê e me disse que dependia de um funcionário pra lhe ajudar nas compras, pois de quinze em quinze dias as fazia. Mas o funcionário não estava disponível para ajudar. Me prontifiquei. Achei que seria uma coisa rápida, mas não. Perguntei o que precisava. Senhor Bill era o seu nome.

Sem mostrar nenhuma dificuldade nas palavras, me entregou uma lista de pelo menos trinta itens. Quis saber se eu tinha pressa. Naquele momento, não tinha como tê-la. 

Me senti responsável por Senhor Bill. Item por item, produto, validade e preço. A exatamente 1h40min depois estávamos na porta do táxi, que já o conhecia. Com um forte aperto de mão, Senhor Bill me agradeceu e perguntou se eu iria pra casa. Falei que sim. Pra faculdade não dava mais tempo. Então ele fez um elogio:
— Gostei muito de você. Educado e prestativo. Daqui a quinze dias estarei aqui às 18h. Posso contar com você? 

Me pegou de surpresa, mas a resposta não poderia ser outra. Um SIM com satisfação e alegria de ter feito uma coisa boa, que durou 6 meses durante o meu período na faculdade. Foi um mergulho intenso em uma amizade de verdade, mas eles não param. Uma vez me pegaram pela mão e disseram:
— Vou te levar em um lugar onde pessoas, uma vez por mês, tiram algumas horas do seu precioso dia para tomar vinhos, cervejas (às vezes), petiscos, tirar fotos, abraços, sorrisos e para curar as saudades.

Às vezes levamos décadas para fazer amizades que cabem nos dedos de uma só mão. Senhor Bill valia uma mão cheia, mas você ter amizade que os dedos de suas duas mãos não são suficientes para contar existe? Sim, existe. Privilégio de poucos. Um lugar onde há respeito, amizade e diversidade das palavras.

Obrigado, Aleatórios, por me fazerem mergulhar na poesia das letras.