homem mergulho subconsciente

O mar que carregamos

A sala de estar cheirava a café requentado. Tomás, afundado no sofá, sentia o peso do cansaço de uma sexta-feira à noite, enquanto a televisão zumbia uma novela que ninguém realmente assistia. No chão, encostada à quina da mesa de centro, repousava sua pasta de couro, pesada, abarrotada de catálogos, amostras e planilhas de metas que ditavam os seus dias. Foi então que Lucas, seu sobrinho de sete anos, parou de rolar o carrinho de plástico pelo tapete e o encarou com aquela curiosidade implacável que só as crianças possuem:
— Tio, o que você queria ser quando crescesse?

A pergunta não apenas ecoou; ela rompeu alguma represa interna. Tomás abriu a boca para formular uma daquelas respostas prontas e inofensivas de adulto, mas a voz travou na garganta. O mundo ao seu redor sofreu uma torção repentina. O barulho da televisão foi engolido por um zumbido grave, denso e absoluto. 

Quando Tomás tentou puxar o ar, sentiu o gosto frio de sal. O chão sob seus pés simplesmente cedeu e ele submergiu como se estivesse mergulhando em seu oceano interno. A gravata que usava, subitamente apertou seu pescoço como uma corrente de ferro, e os sapatos sociais, transformaram-se em âncoras de chumbo, puxando-o velozmente para o fundo, em direção à escuridão.

Enquanto afundava pela Zona Crepuscular de sua mente, ele via os destroços de sua rotina flutuando ao seu redor como lixo marinho: sorrisos ensaiados que ele precisou forçar para fechar negócios, portas batidas em seu rosto, crachás de convenções de vendas e os ecos de “não, obrigado” dançando na água feito algas mortas. O terno que vestia parecia um escafandro enferrujado, esmagando seu peito sob a pressão das contas a pagar e das responsabilidades inadiáveis.

Finalmente, seus pés tocaram o fundo e sentiu que a areia era fina e gélida.  Na penumbra azulada daquela Zona Abissal, repousava o cemitério de seus sonhos intactos. À sua esquerda, erguiam-se dunas feitas de pó de giz. Uma lousa imensa flutuava na correnteza, preenchida com as aulas apaixonadas de História e Literatura que ele nunca chegou a dar. Carteiras escolares vazias serviam de abrigo para o silêncio. À sua direita, a água balançava um jaleco branco fantasmagórico, alvo e imaculado. Um estetoscópio repousava sobre um coral, no ritmo de um coração cheio de esperança. Era ali, naquele fundo escuro e solitário, que habitavam o Professor e o Médico. As duas versões de Tomás que o mundo real não deixou nascer.

Uma dor aguda, mais forte que a pressão da água, apertou seu coração. Aproximou-se da lousa, levantou o giz e antes que pudesse escrever a primeira palavra, o giz dissolveu-se na água. Tentou vestir o jaleco, mas esse se desfez. Chorou. Foi então que olhou suas mãos calejadas de tanto carregar o mostruário sob o sol, mãos marcadas pelo volante na estrada. Mãos de vendedor.

Ele observou o terno pesado e gasto que o puxara até o fundo. Durante anos, ele o odiara, considerando-o o símbolo de sua derrota. Mas, naquele silêncio absoluto, veio a clareza: o terno nunca fora uma prisão. Fora uma armadura. Aquela trajetória nunca fora covardia, mas sacrifícios silenciosos para pagar a escola de seu sobrinho e o sustento de sua irmã, após sua separação, de um relacionamento abusivo; para garantir os remédios da mãe, quando ela adoeceu.

Tomás não tentou arrancar o terno. Em vez disso, ele o ajeitou junto ao corpo com dignidade. Caminhou lentamente até o estetoscópio e a lousa, tocando-os com uma reverência profunda, como quem se despede de um velho e querido amigo. Não havia mais culpa. Ele flexionou os joelhos contra a areia fria e, com a força que só os sobreviventes possuem, deu impulso. A subida foi leve. A água tornava-se mais quente e iluminada a cada braçada. As âncoras haviam se soltado. O escafandro agora era apenas pele.

O zumbido denso desapareceu, substituído instantaneamente pelo som da televisão e pelo barulho do trânsito da rua. Apenas alguns segundos haviam se passado. Tomás piscou, os pulmões cheios do ar do mundo real, a mente finalmente limpa. Lucas ainda estava lá, com os olhos grandes e curiosos, esperando. O homem relaxou os ombros, olhou para a pasta de couro não mais como um fardo, mas como o instrumento de sua própria força. Então, abriu um sorriso largo, e com uma voz firme e serena, falou:
— Sabe, Lucas… Quando eu tinha a sua idade, eu queria salvar as pessoas. Queria curar machucados e ensinar coisas grandes para o mundo.
— E você não conseguiu? — a criança tombou a cabeça, confusa.

Tomás se inclinou para frente, bagunçando o cabelo do menino com suas mãos calejadas:
— Consegui. Mas eu descobri que, às vezes, a gente salva as pessoas e ensina as coisas importantes de um jeito bem diferente do que eu imaginava.

Lucas sorriu, sem compreender bem a resposta. Ainda não sabia que, um dia, também carregaria seu próprio mar.