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Meus primos Geraldinho e Toinho

Meus primos Geraldinho e Toinho são dois profissionais de mão cheia naquilo que fazem. Geraldinho, como eletricista, era o melhor no bairro Nova Era. Deu problema de luz em casa? Logo ele era procurado para resolver. Já Toinho era marceneiro, um artista na arte da madeira. Eles eram daqueles trabalhadores que, com um alicate, fios, uma serra, um martelo e pregos, consertavam tudo enquanto proseavam com o freguês. 

Certo dia, surgiu a oportunidade de trabalhar na casa de um ricaço na Zona Sul. O convite foi feito por um amigo, que disse que um grã-fino estava precisando de um eletricista e de um marceneiro para trabalhar em sua residência:
— Parece até que ele mora em um palácio, de tão grande e bonita que a casa é.

Toinho ficou tão entusiasmado que exclamou, feliz:
— Agora vou ficar rico e me aposentar! 

No dia seguinte, lá foram os dois. Trem lotado. Ônibus mais lotado ainda. Depois de quase uma peregrinação, chegaram diante de uma mansão cercada por muros tão altos que parecia um estádio de futebol. 

Os olhos de Toinho brilharam:
— Geraldinho… a nossa aposentadoria nos espera! 

Geraldinho, mais contido, respondeu:
— Que as suas palavras sejam um louvor para os meus ouvidos. 

Quando o portão se abriu e eles deram alguns passos, fechou-se automaticamente, como a porta de uma cadeia. Foi então que caíram na realidade. O dono da casa era um miliciano que tinha fama de ser mau pagador. Mas agora já era tarde. O homem os recebeu com duas armas na cintura e um sorriso sinistro:
— Podem começar a trabalhar. Sexta-feira acertamos tudo. 

Os dois trabalharam feito burros de carga durante toda a semana. Geraldinho, mais suado que tampa de panela, não sabia se por causa do calor ou do medo do miliciano, passava fios. Toinho montou um guarda-roupa tão bonito que parecia obra de museu. 

Quando finalmente chegou à sexta-feira, os dois, nervosos, apresentaram-se para receber. O patrão, que estava sentado na varanda com duas armas sobre a mesa e as narinas mergulhadas em um prato de cocaína, levantou devagar o rosto, com o nariz mais branco que Omo Total, e disse as palavras que eles mais temiam:
— Hoje não tem dinheiro. 

Toinho gaguejou e, quase engolindo as palavras, disse com um medo de dar dó:
— Mas… doutor… eu tenho família… 

O miliciano, com as duas pistolas nas mãos, apontou para eles e, com a voz alterada, repetiu:
— Cacete! Hoje não tem dinheiro. 

Mesmo assim, voltaram na segunda-feira, na esperança de receber o que lhes eram devido. 

Trabalhavam a semana toda mas, quando chegava a sexta-feira, era a mesma história: dinheiro só na próxima semana. Como todo trabalhador pobre nunca perde a esperança, voltavam na segunda-feira rezando para finalmente receber e nunca mais voltar ali. E nada de novo acontecia. 

Até que aconteceu o episódio do relógio. Um relógio do filho do miliciano desapareceu. Imediatamente, todos os trabalhadores foram colocados em fila no jardim. O patrão caminhava lentamente de um lado para o outro com duas pistolas na cintura:
— Eu não quero humilhar ninguém… — 
Todos prenderam a respiração — …mas estou olhando para a cara do culpado. 

Todo mundo permaneceu em silêncio. Ninguém piscava. Ninguém olhava para o lado. A prótese dentária de um baixinho que estava à frente de Geraldinho começou a tremer tanto que mais parecia um celular vibrando. Geraldinho cochichou:
— Rapaz… se ele continuar tremendo assim, vai confessar até o roubo da Taça Jules Rimet. 

No final, descobriram que ninguém tinha roubado nada. Tinha sido uma armação do filho do miliciano para esconder do pai a venda do objeto sem o seu consentimento. Depois disso, os dois resolveram que era hora de receber o que lhes deviam. 

Quando chegaram na segunda-feira e tocaram a campainha, o portão foi aberto e eles foram recepcionados pelo miliciano, que estava com duas escopetas na cintura e uma pistola na mão direita:
— O que vocês querem aqui na minha casa?
— Queremos receber o que o senhor já nos deve há quase um mês — disse, muito receoso, um trêmulo Toinho que mal se segurava nas pernas.
— De qual destas três “máquinas” vocês querem receber? — disse ele, já dando um tiro para o alto.

Geraldinho e Toinho estão, até hoje, correndo, procurando o caminho de casa. 

Até hoje, quando alguém pergunta no bar, em tom de galhofa, se eles voltariam a trabalhar para o miliciano novamente:
— Nem que a vaca tussa! — diz Geraldinho.
— Nem mesmo se o Vasco for campeão! — diz Toinho. 

E depois caem na gargalhada.