imagem quadro museu redoma de vidro

A imagem

Depois de mais de vinte anos naquele museu, eu conhecia cada um de seus quadros. Antes da chegada dos visitantes, meu trabalho era sempre o mesmo: retirar a poeira das molduras, polir o piso e devolver brilho ao silêncio das galerias. Naquela manhã, porém, até o silêncio parecia diferente.

Funcionários cruzavam os corredores com uma pressa incomum. Curadores falavam em voz baixa, como se qualquer palavra dita acima do tom pudesse quebrar alguma solenidade invisível. A maior sala do museu fora isolada e todos aguardavam a chegada de uma única obra.

Quando a caixa de madeira atravessou a porta, os olhares a acompanharam como se recebessem um velho rei. Na lateral, uma pequena placa de bronze trazia apenas um nome: A IMAGEM. Ninguém sabia ao certo quem a pintara, nem sua origem. A única certeza era que atravessara mais de um século guardada pela mesma família, que a doara ao museu impondo uma única condição: jamais poderia ser exibida.

Sobre a bela moldura repousava um tecido de lã de vicunha, tecido nos Andes peruanos. As fibras, de um dourado queimado, pareciam guardar a luz da sala, como se tivessem sido feitas não para esconder a obra, mas para protegê-la do tempo — e dos olhos. Naquele instante, compreendi que aquela era a única obra que ninguém veria… e que todos fariam questão de visitar.

Primeiro chegaram os jornalistas. Câmeras, microfones e especialistas disputavam espaço diante de uma obra que ninguém podia fotografar. No fim, todas as reportagens mostravam a mesma imagem: um tecido dourado cobrindo uma moldura antiga.

Em seguida apareceram críticos de arte. Permaneciam longos minutos diante do pano, discutindo técnicas, simbolismos e intenções de um quadro que jamais haviam visto.  Não demorou para que chegassem religiosos de diferentes credos. Alguns rezavam em silêncio. Outros apenas contemplavam o tecido, como se esperassem uma resposta. Vieram cientistas, filósofos, artistas…

E vieram crianças. Elas eram as únicas que faziam perguntas que ninguém sabia responder:
— Se os museus existem para mostrar quadros… por que esse fica escondido?

Nunca ouvi resposta alguma.

Com o passar das semanas, percebi que limpava mais pegadas do que poeira. Gente atravessava continentes para permanecer alguns minutos diante de um tecido de lã de vicunha, dourado como o sol no fim da tarde. Nunca vi tanta gente viajar para contemplar um pano.

Aos poucos, deixei de observar apenas os visitantes. Passei a observar a mim mesmo. Depois de ouvir tantas versões sobre o que ninguém via, sem perceber, eu diminuía o ritmo sempre que chegava diante de A Imagem. 

O movimento diminuía quando as luzes começavam a se apagar. Os últimos visitantes deixavam a sala relutantes, como quem ainda esperava um milagre de última hora. Os seguranças conferiam as portas, os curadores recolhiam suas anotações e o museu voltava a ser apenas um museu.

Era então que meu trabalho recomeçava. Recolhia copos esquecidos, alinhava bancos, apagava marcas de sapatos no piso. Sempre terminava naquela sala. Aspirava o carpete ao redor da moldura, limpava o vidro que a protegia e passava um pano sobre o pedestal. Apenas o diretor do museu e eu, seu funcionário de confiança, tínhamos a chave que abria a redoma que abrigava A Imagem. Todos os dias eu limpava tudo ao redor de A Imagem. Tudo, menos A Imagem.

Naquela noite, fui o último a deixar o museu. Como fazia todos os dias, destranquei a redoma para limpar o vidro por dentro. Bastava um gesto. Um único gesto. A chave estava na fechadura. O tecido de lã de vicunha permanecia imóvel, sob a luz tênue da sala.

Pela primeira vez, estendi a mão. Meus dedos tocaram o tecido. Pensei nos jornalistas. Nos críticos. Nos religiosos. Nas crianças. Em todos que viajaram até ali para contemplar um quadro que nunca veriam. Permaneci assim por alguns segundos. Depois, recuei a mão. Fechei a redoma. Girei a chave. Apaguei as luzes.

Se eu levantasse aquele tecido, deixaria de existir A Imagem. Restaria apenas um quadro. Compreendi, então, que o maior artista daquela sala nunca fora o pintor. Era a imaginação de cada visitante, protegida por um simples pano de lã de vicunha.