Ela percebia que as cores já não eram tão nítidas. A imagem da TV cada vez mais ofuscada. E o tédio cinza lhe destruía a imaginação. Precisava ocupar a mente. Era inquieta como o rufar das asas do beija-flor, mesmo quando parecia parada nos pensamentos a divagar. Como seria o mundo daqui a alguns anos em que o poder de suas retinas em transformar luz em imagem acabasse? Como ficaria seu cérebro sem receber essa corrente harmônica de luz que lhe fazia contemplar o belo e até o feio, já que ambos se complementam? Como seria não ver mais nada a sua volta? O rosto dos filhos, o sorriso de uma criança, o caminhar malemolente de um gato… e tudo mais… até seu próprio rosto refletido no espelho?
Às vezes, parecia meio louca andando dentro de casa de olhos fechados numa espécie de treino pra quando lhe viesse a cegueira pudesse se adaptar melhor. Ou seria, na verdade, uma forma de não fechar os olhos para o inevitável?
Outras vezes, tentava capturar toda e qualquer imagem. Registrava tudo o que podia com o seu celular. Ficava fissurada, já não vivia o momento preocupada em eternizá-lo. Pra quê?
Teve uma vez que resolveu aprender a esculpir e então, aprenderia a ver com as mãos. Mas não teve muito sucesso.
Até que um dia, sentada numa praça como de costume a observar tudo a sua volta, uma cena, uma imagem que lhe inspirasse uma crônica, uma poesia instantânea, viu uma família. Um casal atento a contemplar sua filha tagarela e feliz. Eles pareciam conversar muito. Mas era uma conversa diferente. De longe dava pra ouvir a animação. Chegou mais perto e percebeu que a criança olhava como se buscasse o som das palavras e o perfume do ambiente, além de não se distanciar muito dos pais. Quando o fazia, levava com ela um cão muito esperto. Mas o sorriso era contagiante. Então, ela entendeu que aquela criança não via imagens, mas as enxergavam com suas próprias cores. Se aproximou da família:
— Bom dia! Não pude deixar de observar a alegria de vocês! Que linda família! E você, menina, como se chama?
— Rebeca. E você parece preocupada … Senta aqui conosco. Como é seu nome?
— Maria Clara, muito prazer! E eu estava preocupada, mas já passou.
Como podia ficar aflita diante da eminente cegueira? Logo ela que teve o privilégio de conhecer as cores, os rostos de seus amores….
Aquela tarde foi uma das mais agradáveis depois do diagnóstico de glaucoma. Maria voltou para casa com uma certeza: não sentiria mais pena de si mesma com a possibilidade de ver o mundo por outras lentes; as lentes da memória, dos afetos e da imaginação. Respirou fundo, sentou-se e escreveu mais um conto: Além das imagens.





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