tela em branco pintura

Nunca será uma tela em branco

Aos prantos, Lara pegou a tela virgem e a colocou no tripé. Preparou a base para garantir que a pintura durasse por muito tempo. Em sua mente e em seu coração, que durasse a vida toda.

Aplicou duas demãos de primer, lixando entre as demãos. Fez a imprimatura e aguardou a tela ficar pronta para receber a tinta. Foi até a cozinha, pegou uma garrafa de vinho, a taça e, novamente, deixou as lágrimas deslizarem em seu rosto.

Foi um dia difícil. Ao receber a notícia, no primeiro momento, recusou-se a acreditar. Até perceber que era verdade e sentir uma dor tão grande que nunca havia sentido.

Lara sempre foi contra a compra da moto. Mas Danilo insistiu tanto, até comprar uma.

As lembranças foram dominando Lara e as lágrimas lavavam sua alma e essas lembranças.

Não tinha noção dos sentimentos que a invadia, que iam brotando. Estava com raiva do acontecido, sentia uma tristeza imensa, tinha a sensação de que nada do que estava passando era verdade. Aliás, antes fosse um pesadelo. Mas não, era tudo real. Parecia que ia explodir.

Perdera seu amor em um acidente brutal.

Após meia garrafa sorvida e vários pensamentos, voltou à tela preparada.

Lara, de posse das tintas e dos pincéis, paralisou. Mais uma vez o silêncio foi quebrado pelo choro. Olhando a tela em branco, via seu futuro sem Danilo, um vazio que a desesperava.

Aleatoriamente, começou a usar as tintas com movimentos bruscos e pinceladas rápidas. Não queria registrar apenas o rosto de Danilo, nem o impacto do momento, do sofrimento, do futuro interrompido. Mas, sim, o amor, a liberdade e a candura do seu olhar.

Ao terminar, exausta, com a roupa manchada de tinta, afastando-se um pouco da tela, Lara reabastece a taça e diz para si mesma:
 Esta é a imagem que guardarei de ti, para sempre, meu amor.