algemado homem
Curitiba, 09 de março de 2013 Operação mhapecani III Foto: Cabo Manoel Gomes - PMPR

A ficha não caiu

— Calma aê! Calma aê! ‘Cês tão enganados! Pegaram o cara errado!
— Calma nada, cidadão. Está preso!
— Foi engano, cara. Sou trabalhador!
— Explica isso lá na D.P.O.

Assim, Arlindo foi algemado e colocado na caçamba da viatura.

Naquele momento, Arlindo era refém das emoções que o atravessavam. Sentia medo. Não, pânico de perder a liberdade. Nem reagiu à abordagem policial. Simplesmente travou.

Como assim estava sendo preso? Tinha planejado tudo nos mínimos detalhes: “Espero a loja fechar, entro pelo buraco do ar condicionado que foi para o conserto, pego o que tiver de valor e saio por onde entrei. Por volta das três da madruga não tem ninguém na rua. Ninguém vai ver eu entrar e sair da loja.”

O malandro só não contava com a câmera instalada em local estratégico da loja.

Antes de ser preso, já estava famoso na internet. Outros comerciantes da região o reconheceram. Sua imagem havia caído na rede. Tornou-se o ladrão mais famoso do pequeno distrito de Além da Cruz. Ele esqueceu de se atualizar nos planejamentos dos seus furtos:
— Estão cometendo um erro. Pegaram o cara errado!

Com a sensação do dever cumprido, o policial, seguindo a rotina e com a frieza que é peculiar ao exercício da profissão, declara:
— Fala isso lá pro juiz. Está tudo gravado e na imagem até este seu bigodinho sem vergonha está muito nítido e visível.

Arlindo não conseguia acreditar que tinha sido pego. Levava a vida com seus “pequenos furtos”. Assaltar, nunca tinha assaltado. Era contra a violência. Para ele não era pecado tirar de quem já tinha uma certa condição e colocar no próprio bolso. Nunca foi chegado a um trabalho sério, de carteira assinada. Só de imaginar já ficava cansado. Levar a vida na malandragem estava dando certo. Quer dizer, até aquele momento. A iminência de ser preso lhe trouxe uma sensação que até então não havia sentido. O desespero estava perto de o invadir. A crise de ansiedade nem teve tempo de se instalar e nem comoveu o delegado:
— Policial, recolha o cidadão à cela!