— Encontrei-a no jardim deitada na grama, repleta de folhas de cadernos. Muitas folhas de cadernos mesmo. Centenas. Escrevia sem parar com a sua inseparável caneta mágica que carinhosamente chama de Penélope. Disse-me, como sempre diz quando a encontro no jardim, que estava mergulhada num oceano de palavras e frases bonitas, que conseguia pescar lá no fundo do mar. Quando retornava para a superfície, escrevia tudo nas folhas soltas. Disse-me também que as folhas deveriam sempre estar soltas, como se fossem as ondas do mar, para que as palavras e as frases bonitas pudessem circular e alcançar todas as pessoas. Foi isso que ela me disse, eu juro.
“Então me dê uma folha dessas que a Penélope escreveu com uma frase bem bonita. Faça de contas que a onda do mar trouxe agora para mim.”
— Pedi e ela me atendeu. Pode ler.
Olhou sem dar importância para o que disse. Pelo menos foi a impressão que tive com o olhar de desdém ao pegar a folha de caderno. Ela acha que eu não sei o que é um olhar de desdém?
— Pode ler – insisti.
— Ainda há esperança na palavra ainda.
Ainda há esperança na palavra.
Ainda há esperança.
Ainda há.
Ainda.
Assinado. Penélope.
Dobrou a folha de papel e colocou no bolso do seu jaleco. Me levou para dentro.
— Gostou? — perguntei.
— Do que?
— O que a Penélope escreveu!
— É… Gostei.
— Ainda há esperança então?
Não me respondeu. Ou se respondeu não ouvi. Apaguei logo depois que ela aplicou a injeção de todo dia. Meu último pensamento foi: O que digo pra Penélope?





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