A aeromoça assustada pegou o microfone e soltou:
— Senhoras e senhores, solicito que mantenham a calma, mas… tem algum piloto a bordo?
Pronto! Foi um “Deus nos acuda”. Pessoas gritando, ateus fazendo orações, um pastor fazendo promessa a tudo que é santo. Professor Austregésilo não viu outra alternativa senão levantar a mão:
— Já pilotei aviões desse tipo, mas em simuladores.
A aeromoça ainda soltou um “mais alguém?” antes de assumir que teria que ser o velho professor mesmo e o conduziu até a cabine.
Professor Austregésilo olhou dentro da cabine. Parecia o cenário de um filme de terror: o urubu entrou pelo para-brisa do avião e acertou o piloto e o copiloto. Ambos estavam defenestrados, com um toque de litros de sangue para todo lado. O cadáver do urubu ainda permanecia no colo do copiloto, como se ambos aguardassem instruções do piloto. O vento que entrava pelo vidro era insuportável.
Empurrou o corpo do piloto para o lado e sentou-se em seu lugar, tomando o manche nas mãos. Só então percebeu que o acidente também danificara a barra de interligação dos manches. Quando movia o manche do piloto, o do copiloto ia para outro lado. Como todo bom professor, Austregésilo pensou um pouco e percebeu que poderia amarrar um manche no outro que manteria a sincronização dos dois. Pediu ajuda à aeromoça, que saiu correndo. Até seu retorno, pegou o rádio e chamou:
— Mayday, mayday. Avião em pane…
Ninguém respondeu, mas o retorno da aeromoça com uma corda de alpinista fê-lo lembrar da prioridade.
Amarrou a corda nos dois manches e o avião entrou em mergulho. Austregésilo segurou com todas as forças o manche e puxou para cima. O manche se moveu, o avião aprumou, mas o manche começou a ficar mais pesado, como se tivesse ganhado vida própria… e o avião voltou a mergulhar. Puxou com mais força. Desta vez o manche parecia fazer força para baixo, como se quisesse sair de suas mãos. Neste momento, a aeromoça da porta da cabine gritou:
— A corda!
Austregésilo olhou e viu que o vento havia embolado a corda no manche do copiloto, que agora ia para o lado oposto. Fez mais força ainda. A aeromoça desesperada:
— A corda!
E ele:
— Estou vendo! Me ajuda, tenta desembolar ela!
E a aeromoça, estática:
— A corda!
— Eu sei!
Levou uma porrada forte na cabeça.
— Acorda, filho da puta!
Professor Austregésilo acordou segurando as orelhas de sua esposa Hermengarda, professora de Filosofia. Só aí lembrou que nunca andara de avião.
Nem em simulador.

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