marceneiro cadeira de balanço

Vai e vem

Era curioso. Formação mesmo, quase nenhuma. Mas era curioso e, com o passar das décadas, tornou-se expert  em vários assuntos. Sabia fazer sabão com gordura e cinzas, sabonete com o sabão e folhas de limoeiro;  enxertava uma planta em outra com uma facilidade que ninguém possuía. Haja vista a goiabeira que dava frutos  com sabor de canela. Pintava quadros, esculpia em mármore, trabalhava madeira, mas a dificuldade residia em  uma única peça que jamais saíra perfeita: a cadeira de balanço. Se o sarrafo fosse de uma madeira muito rígida,  o pé não curvava; se fosse maleável, rachava mal sentasse. Anos de tentativa e desperdício de madeira, sonhando  o vai e vem de ao menos uma cadeira. 

Meados dos anos oitenta, abertura democrática e o primeiro presidente civil é o Sarney. Algumas peças de  madeira se foram. Sarney se foi. Estava testando um ipê roxo arqueado no pé e o povo elegeu o Collor. O Collor!  Povo de memória curta. Embora o ipê roxo desse uma tonalidade bonita, aparência não é tudo. Beleza não põe  mesa, dizia a avó em tempos idos. Nem sustenta os bancos. Os bancos quebraram, o pé quebrou e deu com a  cara no chão, junto com um monte de gente. Ao menos conseguiram tirar o Collor. Vai Collor, vem o Itamar. Foi  justo quando fez o arco do pé com cerejeira. Rangia, estalava, passava a impressão que iria quebrar a qualquer  momento, mas até que a cadeira aguentou. Pouco tempo. 

Lembrava como se fosse ontem o dia que a cadeira com pé de cerejeira quebrou. O FHC acabara de tomar  posse. O escritor de um único livro – plágio, diga-se de passagem – que entrou para a Academia Brasileira de  Letras. Tudo bem. O Collor tentou com um livro escrito por um ghost writer. Na ABL não entrou, mas entrou para  a Academia Alagoana. Delongas de lado, depois do fracasso da cerejeira, veio o arco do pé em jacarandá. 

A ideia do Plano Real – do Itamar, importante lembrar – era boa, mas precisava de tempo e desenvolvimento  econômico para se firmar. Mais ou menos como o jacarandá. Levou um tempão entortando o caibro de jacarandá.  Calor e pressão. O mesmo ocorria com a economia do País. Quando achou que estava no ponto, montou a cadeira.  Sentou. Parecia firme. Balançou um pouco temeroso, lembrando dos dois dentes da frente que perdera na cadeira  de cerejeira. Foi, voltou, foi, voltou. Lembrava um pouco o preço do ovo. A cada balançada, um pouco de pó  espalhava pelo chão. Não demorou muito a perceber que o jacarandá estava infestado de cupim. Decidiu insistir  com o jacarandá do mesmo jeito que o povo insistiu no FHC. “Vou dar um voto de confiança”, pensou. No  jacarandá, não no Fernando Henrique. Votou no Lula. Fernando Henrique levou a reeleição e a economia à  bancarrota. O arco de pé de jacarandá deu o mesmo resultado. Não pelos cupins, mas o tratamento para evitar  cupins tornou a madeira mais rígida e rachou nas primeiras tentativas. 

Com uma sucessão de coincidências, Lula se elegeu. Pegou o País arruinado economicamente. O arco de  jacarandá foi tão prejudicial que não dava para aproveitar muita coisa e teve que refazer assento e costado. Na  onda do nacionalismo crescente, o orgulho de ser brasileiro do período, resolveu experimentar um arco de pau brasil. Sucesso! A economia ia bem, os bens de consumo acessíveis e decidiu contratar uma diarista. Para dar  liberdade à moça, quando ela chegava para arrumar a casa, ele saía. Ia jogar biriba na praça perto de casa com  os amigos. Jogavam, conversavam sobre o Brasil ter se tornado a sexta economia do mundo, os projetos de nos  tornarmos o maior produtor de plásticos do mundo, com navios de plástico, carros de plástico, casas de plástico.  Afinal, o plástico é o futuro de mundo e é facilmente reciclável. Muito mais que o vidro. Depois da rodada de  conversa e cartas, voltava para casa, sentava em sua cadeira de balanço de pé de pau-brasil e olhava absorto  para o nada, indo e vindo até adormecer. 

Lula foi, veio Dilma. Economia fluindo e sabe-se lá o porquê, o povo decidiu votar no Aécio. O neto do Tancredo,  sobrinho do Dornelles. Aécio perdeu, mas prometeu arruinar o Brasil até tirar Dilma e assim assumir a presidência.  Com todos os conchavos e conluios, tirou a Dilma. Mas foi relegado à lata de lixo da História. Assumiu o malandro  que engendrou a deposição de Dilma: o Temer. Trouxe de volta o entreguismo, vendeu o pré-sal a preço de  banana e arruinou todos os projetos relacionados ao desenvolvimento industrial do plástico. 

Dispensou a diarista poucos dias depois de descobrir que ela molhava o arco do pé da cadeira de balanço. A  demissão não foi por isso, claro. A economia estava novamente arruinada e não poderia mais manter seu salário.  Mas a moça ficou com a impressão que foi porque molhava o pé da cadeira de balanço. Molhava não, encharcava  mesmo. A madeira apodreceu e tomou um belo tombo quando Bolsonaro venceu as eleições. “Inacreditável!”,  pensou. “Foi tão difícil comprar o pau-brasil e a diarista molhou a madeira”. 

Bolsonaro assumiu, veio a pandemia, a mortandade de brasileiros e decidiu que não queria mais acompanhar  aquele vaivém de políticos, cuja finalidade parecia ser praticar o vai-e-vem na população pobre. Também não  queria mais o vai e vem da cadeira de balanço e jogou os apetrechos de marcenaria fora. A última vez que foi visto  – logo após o recente fim de primeiro turno – estava procurando pau-brasil de novo.