ponte

O voo de Duda

Algumas cicatrizes no corpo não deixavam dúvidas de como Duda encarava sua vida como uma grande aventura. Como as marcas da cirurgia que fez, ainda criança, no braço direito, em decorrência do tombo que levou ao cair do skate ou os arranhões nas pernas que se confundiam com as tatuagens. Cada passo que dava era como um mergulho, tornando-a especial. Não queria para si uma vida sem graça. Era assim que gostava e desejava que fosse sempre.

Gostosamente ria alto e alegrava a todos ao seu redor. Seus olhos brilhavam de satisfação quando corria para o perigo. Foi assim desde muito pequena. Não é necessário falar da preocupação que causava em sua família por suas escolhas:
— Dudinha, desça da goiabeira! Vai cair daí, menina!

Para Duda, respirar era pouco, precisava daquela adrenalina para se sentir viva. Para ela era inexplicável. Somente vivenciando a experiência para saber.

Ao pular de lugares altos, com o vento batendo em seu rosto, era como se tivesse asas que poderiam levá-la para além do infinito. 

Naquele lindo dia, a ponte velha e desativada seria seu trampolim. Lá embaixo, o abismo chamava por seu espírito aventureiro e sua coragem. Mirou o horizonte e sorriu. Estava leve e pronta para mais uma das suas. Pensou na mãe ao saber do que estava prestes a fazer. Ela nunca se conformava com suas escolhas.

Chegado o momento, os três instrutores que deveriam ser os guardiões do seu próximo salto a seguraram pelas mãos, a ergueram no ar e a lançaram. Tudo certo e dentro do previsto. Duda fechou os olhos e entregou-se ao sabor do vento para mais um voo. Porém, um detalhe crucial fora esquecido: a corda de segurança não estava presa ao seu corpo. Ninguém lembrou de verificar. Como poderia um erro assim? Os rígidos protocolos exigidos para a prática do esporte não foram usados! Dudinha partiu como viveu.