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Mabiala

Meu nome é Mabiala. Sou de Cabinda. Ainda jovem, fui sequestrado no norte do Congo e trazido para cá em um tumbeiro. Não quero descrever os horrores daquela viagem. Outros já o fizeram. Basta dizer que meu corpo chegou ao Valongo, mas eu, não. Eu já estava morto. Ainda assim, desembarquei.

Vi quando retiraram meu corpo do navio junto a outros que, como eu, não haviam resistido à travessia. Tentei acompanhá-lo. Talvez ainda acreditasse que, permanecendo perto dele, continuaria sendo Mabiala. Mas para aqueles homens eu não tinha nome, história ou família. Era apenas mais um corpo que precisava desaparecer. Levaram-nos para perto dali. Corpos sobre corpos, alguns cobertos por pouca terra, outros esperando sua vez. Foi assim que conheci o lugar que vocês hoje chamam de Cemitério dos Pretos Novos. Foi a primeira vez que me enterraram. Mas eu permaneci.

Voltei para junto das pedras onde havia desembarcado e, durante muito tempo, vi chegarem outros como eu. Milhares. Alguns desciam dos navios cambaleando, assustados com a terra estranha. Outros precisavam ser carregados. Entre os que chegavam, eu procurava os meus. Às vezes reconhecia uma palavra. Um canto. Uma marca no rosto. O modo de alguém chamar por seus ancestrais. E por alguns instantes, o Congo parecia desembarcar novamente diante de mim. Depois eles partiam. Eu ficava.

Vi aquele cais engolir gerações. Com o tempo, deixei de procurar rostos conhecidos entre os que desembarcavam. Já não sabia sequer se havia alguém dos meus para procurar. Aprendi que a esperança também se cansa. Até que os navios deixaram de trazer os meus. Pensei que finalmente aquelas pedras poderiam descansar. Enganei-me.

Um dia, homens chegaram com ferramentas, pedras novas e ordens. Ouvi dizer que uma imperatriz viria de muito longe e desembarcaria ali. O velho cais precisava estar à altura de recebê-la. Achei curioso. Durante tantos anos, aquelas pedras haviam servido para os pés feridos de milhares de africanos. Receberam homens, mulheres e crianças arrancados de suas terras. Sobre elas ficaram sangue, lágrimas e despedidas. Mas não eram dignas dos pés de uma imperatriz. Cobriram tudo. Onde antes desembarcavam escravizados, ergueram um novo cais. Deram-lhe outro nome, como se mudar o nome de um lugar pudesse mudar aquilo que ele havia testemunhado. As pedras desapareceram. Eu, não. Foi a segunda vez que me enterraram. Desta vez, porém, não enterraram apenas a mim. Enterraram o Valongo.

O tempo passou. Quanto, já não sei. Para quem está morto, os anos deixam de ter importância. Até que um dia, vagando pelas proximidades, ouvi alguém cavar. Não eram as grandes máquinas que tantas vezes haviam rasgado aquela cidade. Eram pessoas comuns, mexendo no chão de uma casa. Primeiro vieram os ossos. Depois outros, e outros. Ouvi os nomes Merced e Petrúcio e descobri que, sem procurar por nós, haviam encontrado o Cemitério dos Pretos Novos. Pela primeira vez, vi pessoas se debruçarem sobre nossos restos não para escondê-los, mas para saber quem éramos. Com o tempo, vieram pesquisadores, estudiosos, gente querendo compreender o que havia acontecido naquele lugar. Alguma coisa começava a mudar.

Anos depois, ouvi novamente o chão se abrir. Desta vez eram obras maiores. Máquinas revolviam a região do porto quando, debaixo de camadas e mais camadas de uma cidade construída para esquecer, as velhas pedras tornaram a aparecer. Reconheci-as imediatamente. Eram as mesmas que haviam recebido meu corpo. As mesmas sobre as quais tantos dos meus haviam dado seus primeiros passos nesta terra. As pedras do Valongo estavam outra vez diante da luz. E eu também.

Desde então, vejo pessoas chegarem de todos os lugares. Gosto quando chegam as crianças. Elas perguntam. Querem saber quem passou por ali, de onde vieram aquelas pessoas, como viviam, por que foram trazidas, o que aconteceu com elas. Durante tanto tempo ninguém perguntou. Outro dia, uma delas se afastou do grupo e ficou olhando para as pedras. Depois levantou a cabeça e perguntou:
— Mas a gente sabe o nome deles?

Eu quis responder. Quis dizer que tivemos nomes. Tivemos famílias. Tivemos uma terra. Rimos, amamos, cantamos, reverenciamos nossos ancestrais. Tivemos uma vida antes que nos transformassem apenas em números. Aproximei-me da criança. Sei que ela não podia me ver. Talvez jamais pudesse me ouvir. Mesmo assim, depois de mais de duzentos anos, finalmente havia alguém fazendo a pergunta que eu esperara por tanto tempo. Então respondi:
— Meu nome é Mabiala.