névoa frio cidade

Noite de terapia

19h15 

— Desculpe por remarcar.
— Aconteceu alguma coisa hoje?
— Ventou muito de manhã. 

Margarete esperou.
— Eu evito sair quando venta.
— Evita ou não sai? 

Erick apertou os próprios dedos.
— Não saio.
— O que acontece?
— As pernas tremem. Eu digo a mim mesmo que não tem motivo. Não adianta.
— O que o vento lembra a você?
— Não quero falar disso. 

Ela não insistiu. O silêncio durou o bastante para a sala ficar pequena.
— Eu tinha nove anos. Morávamos num barraco de madeira, na beira do rio Acari. Meu  pai, minha avó acamada e eu. Tinha chovido a semana toda. A terra estava úmida. Aí veio o vendaval.
— Vendaval?
— O telhado começou a soltar. Meu pai subiu numa cadeira de plástico para segurá-lo. Minha avó gritava. Ele mandou eu pegar a corda lá fora.

Erick parou.
— Assim que abri a porta, ele me empurrou com o pé para o lado de fora. Quando olhei para trás, o barraco descia a ribanceira. Os dois ficaram lá dentro.

Margarete não disse nada.
— A culpa foi minha.
— Por quê?
— Porque eu saí. Eles ficaram.
— Você disse que ele empurrou você.
— E daí?
— …

Lágrimas desceram. Erick cobriu o rosto. Quando falou, a voz saiu embargada.
— Eu podia ter feito alguma coisa. Eu podia, eu podia…
— Podia o quê?

Ele abriu a boca. Nada saiu. Olhou para as mãos como quem procura ali uma resposta guardada desde a infância.
— Eu não sei.
— Talvez seja isso que precisamos escutar.
— Eu sei que não estou naquele barraco. Mas o corpo não sabe.

20h05

— Nosso tempo acabou, Erick.

Ele se levantou e foi até a porta. Antes de sair, virou-se.
— Você acha mesmo que a culpa não foi minha?
— Acho que precisamos descobrir por que você passou a vida acreditando que foi. Erick esperou mais alguma palavra. Não veio.

Abriu a porta.

Na calçada, o vento bateu em seu rosto. As pernas tremeram.

Ele não voltou para dentro.