Seis da manhã. O despertador não funcionou e Marina acordou rapidamente, pulando da cama. Havia perdido a hora maratonando um dorama na noite anterior. Foi somente quando pegou o vestido no armário é que se lembrou de que não ia trabalhar naquele dia.
Foi para a cozinha fazer o café. Chegou a colocar o pó no filtro, mas lembrou-se de que faria exame de sangue e precisaria, por isso, fazer jejum. Sorriu. Realmente estava muito esquecida. Só podia ser B12. Conferiu a Megasena. Não acertou nenhum número.
Tomou banho, escovou os dentes e passou um batom. Depois de pegar a bolsa e conferir tudo, retirou uma folhinha do calendário do Sagrado Coração de Jesus. Foi nesse instante que reparou que era uma sexta-feira. Treze. Em um instante, várias lembranças passaram em sua mente. Sua mãe, a supersticiosa da família, fazia de tudo para não sair de casa numa sexta-feira treze. Ela nem falava a palavra azar. Colocava até um galhinho de arruda atrás da orelha. A saudade apertou no peito. Ainda não faziam dois meses da sua partida.
Ao sair, teve problema com o portão. O miolo parecia ter dado problema e não abria de jeito nenhum. Foi ajudada por uma vizinha que passava no corredor. A chave só estava abrindo pelo lado de fora.
— Gente, que dificuldade pra sair de casa — pensou.
Já no ônibus, outro perrengue. Não conseguiu passar pela roleta usando o cartão. E acabou fazendo um Pix. Colocou a questão do cartão na lista de urgências. Chegando ao laboratório, pegou a senha e encarou o número cismada: treze. Como detestava fazer exame de sangue. Detestava agulhas e ficar sem café, seu despertador natural. Quando foi chamada, começou a “sessão tortura”. A funcionária não conseguia achar a veia. Sumiu. Foi brincar de pique-esconde. Veio a segunda. E nada. Ela já estava ficando nervosa com a situação, que só foi resolvida quando chamaram a funcionária que tinha mais tempo no laboratório. Treze tubos. Nem vampiro vai me querer hoje — pensou.
Pegou o ônibus para casa e novamente pagou com dinheiro. O sol já estava bem forte. Quando desceu no ponto, começou a ficar tonta. A pressão teria baixado por conta do calor ou pelo jejum? Ela se arrastava e só pensava em chegar em casa. A vista começou a escurecer e ela entrou em pânico. E se desmaiasse ali, no meio da rua? Apoiou-se no poste como se ajudasse. Nesse momento, sentiu uma mão segurando seu ombro.
— Marina, você está bem? — perguntou Miguel preocupado. Estudaram juntos no ensino fundamental e médio. Estavam sempre nos mesmos grupos de trabalho, no grupo jovem da igreja. Depois que ele foi morar em São Paulo por conta do trabalho, Marina só o via, às vezes, nas festas de fim de ano. Soube que ele havia voltado para ajudar a cuidar da mãe que estava doente. Como ele estava diferente. Usando barba! Explicou que estava um pouco tonta devido ao jejum e ao calor que já estava batendo ponto tão cedo:
— Então, vamos fazer o seguinte: Vamos acabar com esse jejum agora na cafeteria da Lolita. Você vai se sentir muito melhor.
Marina pensou em agradecer ao convite e recusar. Mas parecia hipnotizada por aqueles olhos castanhos tão conhecidos. Simplesmente disse:
— Vamos. tem muito tempo que eu não vou lá.
Na cafeteria, enquanto saboreavam as delicias preparadas por Dona Lolita, conversaram como nos velhos tempos. Trocaram contatos. Quando falou das aventuras daquele dia, ele riu e a encarou, brincando com Marina:
— Ainda bem que você não é supersticiosa como a sua mãe. Senão não ia te reencontrar. Hoje é meu dia de sorte.
Os dois sorriram. Anos depois, já casados, Marina relembrava aquele dia com carinho. Azar no jogo, sorte no amor!





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