Era uma sexta-feira à tarde, combinamos de ir de carro de aplicativo para voltarmos juntos no carro novo. Na concessionária, antes de sairmos, registramos o momento com uma foto. No fundo, o automóvel com um grande laço de fita e à sua frente, nós três. Estávamos felizes com a nova conquista e, como não queríamos dar margem para o azar, nos certificamos de que o veículo já estivesse coberto pela seguradora.
Érica havia acompanhado as negociações da compra desde o início. Estava muito empolgada em ver o pai realizando mais um sonho, agora um carro automático para conforto de suas hérnias de disco.
O novo proprietário dirigia devagar e com cuidado, como criança a descobrir as peças de um novo brinquedo. Apesar de ser um bom motorista, não estava acostumado com a automatização e o trânsito, por sua vez, também estava muito congestionado devido ao horário.
Impacientemente, resolveu mudar o trajeto. Pegamos então uma pista livre, finalmente. Conseguimos fugir do tráfego intenso, que sorte a nossa. Estávamos confiantes, estávamos no caminho mais rápido. O motorista, mais ousado, acelerava porque a estrada exigia.
— Você vai seguir à risca as orientações do GPS? — Perguntei.
— Não, vou continuar seguindo pela via principal. Já até evitei vários desvios.
Respirei aliviada. De vez em quando, vinha-me uns pensamentos macabros. Que uma bala perdida pudesse nos atingir, por exemplo, mas procurava tirá-los da cabeça. Essas coisas nunca acontecem com a gente.
O pior já tinha passado, pensei, quando estávamos presos no engarrafamento. Então, me veio a lembrança do congestionamento e, com ela, a imagem intrigante de um ciclista que vinha na contramão. Ele era negro, sem camisa, bonito, numa bicicleta pequena para ele. Olhei para aquela figura e vi suas feições nada amigáveis e seus olhos fitados no meu marido, o motorista.
— Que estranho! Viu aquele moleque na bicicleta, filha? Não gostei da cara dele…
— Você já viu que tá um sol pra cada um lá fora, mãe? Tá de fazer careta mesmo. E riu do meu espanto.
Continuamos nosso percurso e, depois de algum tempo, estranhamos a aproximação de um Corolla preto nos fechando, quase esbarrando em nosso carro. Pensamos naquele momento que fosse alguém com muita pressa. Demos passagem para evitar qualquer colisão, nos espremendo no acostamento.
E para nossa surpresa, o veículo preto atravessou na nossa frente, nos obrigando a parar. De dentro dele saíram três rapazes armados de fuzil, um deles muito parecido com o moleque da bicicleta pequena. Olhei no olho dele, desta vez sem medo, e tentei negociar:
— Menino, deixa ao menos nossos documentos?
Mas ele não quis conversa. Eles tinham pressa. Então, refleti: Que má sorte estão construindo para suas vidas!
Eles não nos levaram quase nada, apenas nossos pertences. Ficamos na estrada sem carro, sem bolsas, “sem lenços e sem documentos”. Eu estava anestesiada com tudo aquilo. Então, com uma calma inexplicável enquanto minha filha chorava, avistei um carro ao longe e acenei. O motorista que viu tudo de longe, gentilmente parou e nos levou de volta para casa.
No dia seguinte, estávamos no shopping comprando novos celulares e comemorando a vida. Que sorte a nossa!





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