Os dias passavam e nada se resolvia sem trabalho, sem reserva. A vontade aumentava. Que azar ser adolescente e depender, não ter trabalho e não ter o que fazer. Andei a pé a semana toda para economizar o dinheiro da passagem, mas não era o suficiente pra fazer nada.
Sexta-feira, último dia de expectativa, a ansiedade aumentou, a mente ativou lembranças das poucas comemorações que recebeu.
No pequeno grupo, os pais ajudavam mas, neste caso, não teria este tipo de colaboração, a família não tinha o costume de celebrar qualquer data festiva, não por falta de verba, que era o meu caso, mas por dar trabalho. Acredito que foi o que levou Saulo a se aproximar.
A alegria do leite que azedou, esquecido na mesa, e viraria doce com um pouco de açúcar e paciência para mexer. Com certeza azar dos pais, mas boa sorte para os filhos. A ajustadinha para comprar ki-suco jarrão e comer com bolinho de chuva com três ingredientes, das moedas que a vizinha deu por ajudar levar suas bolsas.
Para quem nasceu no fim do mês não tem saída, todos estão pensando no próximo pagamento.
Com os planos feito, saio da escola e vou para base, varanda da casa da avó onde era permitido por sorte, fazer as brincadeiras e comemorações.
Caminhando e o pensamento divagando. Muito azar não ter dinheiro, ninguém do grupo trabalhar, nascer no fim do mês.
Vejo pessoas oferecendo dinheiro e penso “que bom seria se este dinheiro falso para empréstimo fosse de verdade”.
Um vento um pouco mais forte chegou e as notas voaram, subiram e desceram. Apenas uma continuou no ar, veio na minha direção. Parecia ser de verdade. Dei uma corridinha e pisei. Ela caiu do lado que não tinha o carimbo de falsa. Parei olhando, incrédula. Uma colega da sala me vê e pergunta:
— O que você tanto olha parada aí?
Respondo:
— Acho quê é uma nota verdadeira, não tenho certeza.
A amiga disse:
— Se eu abaixar pra pegar, eu fico com sua sorte por ter achado e parado a nota no vento, e você com meu azar por não ter encontrado antes.
Sem demora, peguei a nota e era de fato verdadeira. Olhei a volta quem seria o dono e se estava procurando. Com certeza faria falta. Andei atenta olhando, mas ninguém aparentava procurar. Dobrei bem pequeno para não perder.
Compramos todo o material e uma festa surpresa aconteceu com bola, bolo, docinho, refrigerante e muita alegria.
Na verdade, não é azar nascer no fim do mês e sim sorte com bom coração de amigos que querem celebrar juntos.





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