O pequeno João passava pela região portuária com sua mãe, a caminho da estação, para embarcar no trem para Japeri. Ao chegarem ao Cais do Valongo, ele se agachou para pegar uma minúscula pedrinha que havia visto no chão. Assim que tocou nela, começou a ouvir vozes e sons que o deixaram assustado. Ele não conseguia entender de onde vinham aqueles sons. A mãe, ao perceber o espanto repentino do filho, perguntou:
— João, o que está acontecendo?
O menino respondeu, mostrando a pedrinha que segurava na mão:
— Mãe, eu acho que essa pedrinha que peguei no chão é encantada!
Curiosa, a mãe quis saber por que ele dizia aquilo. Na sua inocência de criança, João respondeu:
— Mãe, assim que toquei nela, comecei a ouvir vozes e sons de tambores, parecidos aos que escuto todos os sábados à noite, bem perto da nossa casa, lá em Nova Iguaçu.
A mãe olhou para o filho e explicou:
— Meu filho, ela não é encantada. É apenas uma pedrinha que guarda histórias de lamentos e dores dos nossos antepassados, que durante muito tempo foram trazidos de lugares distantes para este local contra a própria vontade.
João olhou para a pequena pedra e perguntou:
— Mãe, como é que pode um lugar tão silencioso guardar tantos gritos?
A mãe respondeu:
— Meu filho, cada uma dessas pedras do cais conta a história de uma família que foi separada, de pessoas que foram vendidas sem pena nem dó por esta cidade e por muitas outras cidades deste país.
João apertou a mão da mãe e disse:
— Eu nunca quero me separar de você, mãe. E também não quero ser vendido como mercadoria!
A mãe o abraçou e respondeu:
— E nem vai, meu filho. Mas, durante muito tempo, foi assim. E, até hoje, muito daquele sofrimento ainda permanece em nossos corpos e em nossas almas.
O menino, ainda curioso, perguntou:
— Mãe, como eles chegavam aqui, vindos de lugares tão distantes?
Ela respondeu:
— Meu filho, vinham em grandes navios, todos amontoados, sem nenhuma higiene, enfrentando as intempéries do mar. Muitos sequer chegavam aqui com vida. Ficavam pelo caminho, perdidos no imenso mar.
Depois de algum tempo, João e sua mãe chegaram à Central do Brasil. Ao entrarem no trem para Japeri, encontraram uma composição lotada, sem espaço sequer para colocar os pés. Mesmo espremido entre os passageiros, João não conseguia esquecer a pequena pedra que havia encontrado no Cais do Valongo.
Com tristeza, pensava nas histórias que sua mãe lhe contara e imaginava o sofrimento daqueles que haviam atravessado o oceano dentro de grandes navios, separados de suas famílias e trazidos contra a própria vontade.
João apertou ainda mais a mão da mãe. A pequena pedra permanecia em seu bolso. E, naquele momento, ele teve a impressão de que ainda podia ouvir, bem baixinho, as vozes, os tambores e os gritos daqueles que jamais deveriam ser esquecidos.




Deixe uma resposta