netos avô aliens

A mesma imagem

— O que é isso? — meu irmão perguntou.
— Não sei — respondi, depois que ouvimos um barulho estrondoso e saímos para o quintal.

Meu irmão era um cara muito religioso. Evangélico, da Assembleia de Deus. Vivia dizendo  que estávamos no fim dos tempos e que Jesus estava voltando. Eu, por outro lado, nunca acreditei em Deus. Mas sempre acreditei em ETs.

Fomos criados no interior, em São Thomé das Letras. Numa certa noite, quando éramos  crianças, vimos um ser estranho na plantação do nosso avô. Parecia uma cabra e se afugentou quando nos viu.

Tenho certeza de que era um ser de outro planeta.

Meu irmão afirmava que era um demônio, que tinha vindo nos castigar por termos respondido à mamãe naquela tarde. 

Quando contamos ao vovô, ele disse que se parecia uma cabra, era uma cabra. Mas eu continuo acreditando que era um alienígena. 

Meu irmão nunca conseguiu me entender. Nunca assistiu os filmes do Spielberg, nem leu O Guia do Mochileiro das Galáxias. Preferia assistir ao Show da Fé e ler Café com Deus Pai.  Enquanto eu ouvia Carl Sagan, ele ouvia Silas Malafaia. 

Foi esse impasse que surgiu mais uma vez no dia do estrondo. 

Saímos para o quintal e vimos o que estava acontecendo. 

Víamos a mesma coisa. 

Mas não enxergávamos a mesma imagem. 

Um clarão enorme tomava o céu.
— Eles chegaram — eu disse.
— Eles quem? — meu avô perguntou.
— Os anjos de Deus — meu irmão respondeu.
— Os seres de outro mundo — eu respondi ao mesmo tempo. 

Senti a porrada.
— Como ousa blasfemar perante Deus? 

O punho dele veio antes da palavra “blasfêmia” terminar. Girei, agarrei sua camisa, e nem vi meu avô entrar no meio. Ele tentou nos separar e recebeu o soco que era para mim.  Cambaleou. Buscou apoio no ar e não encontrou nada.

Caiu.

A cabeça bateu no chão.

Olhamos um para o outro, estáticos.

Pareceu que, pela primeira vez, aquilo que eu e meu irmão enxergávamos tinha a mesma imagem dentro de nós. 

Dias depois, os cientistas explicaram o clarão como um sprite vermelho, um fenômeno luminoso produzido por uma tempestade distante. 

Para nós, porém, havia uma única imagem que lembrávamos daquela noite. Nosso avô.

Caído.

Com os olhos virados. 

Sem respirar.