— Quem somos? Para onde vamos? Quem é essa imagem refletida no espelho? O que vejo é o que os outros também veem? Até que ponto? Até quando?
Ela fazia pose e mais pose na frente do espelho e continuava a refletir, não a imagem, mas os pensamentos diante dela:
— Eu sei também que a imagem é mutante… É temporária. É vista e lida por diferentes lentes. Eu não sou uma imagem, mas me represento através dela. Não só dela, ainda bem.
Às vezes, ficava a observar a mãe, pela qual se orgulhava e se inspirava. O tempo havia passado e sua mãe, envelhecido. Imaginava que para ela seria difícil acompanhar as mudanças externas sem que não houvesse as internas. É difícil aceitar as metamorfoses do tempo, mas esse não era o maior problema de Vitória. Ela ainda era jovem. Mas, apesar disso, sempre brigou com o espelho, não era de hoje.
Ela não se identificava com o que via refletido. Ficava assim por horas, tentando se convencer de que a imagem não era tão importante. Na infância, se sentia estranha, meio inadequada. Na adolescência, não tinha roupa que lhe agradasse.
Mas, o pior era como as outras pessoas a viam. As cobranças sociais que sofria. Era complicado encarar a realidade diante do espelho dos outros. Até que, um dia, decidiu mudar sua aparência. Seus pais já estavam separados. O pai não a via fazia anos.
Depois da transformação, estava mais feliz. Então tomou coragem e postou uma linda selfie no seu status de rede social. Era exuberantemente linda. Seu pai viu a publicação e comentou imediatamente:
— Que linda foto! Estou muito orgulhoso!
Estranhou, pois afinal de contas, seu pai não mandava uma mensagem havia tempo, E depois, o que é uma foto? A imagem de um corpo efêmero, basicamente constituído de bactérias, boa porcentagem de água e algumas células que um dia sucumbem?
Sua reflexão foi interrompida com a ligação do pai, deixando-a ainda mais perplexa:
— Adorei seu status! Estou orgulhoso! Você não sabe como essa imagem acalmou meu coração. É sua namorada, Vitor?
E para a decepção do pai, veio a notícia bombástica:
— Não, pai, essa sou eu. Você é que nunca me enxergou. Prazer, Vitória!





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