piscina narciso ego reflexo

Narciso ao avesso

Mauro, sentado em um canto isolado do deck, aguardava o início das provas de saltos ornamentais. Sentia algo estranho. De repente, toda a ansiedade, toda a euforia acumulada durante semanas pelo “grande dia”, o dia da apresentação, haviam desaparecido.

Calafrios percorriam sua pele e, por mais que tentasse afastar os pensamentos, eles insistiam em invadir sua mente. Havia muito tempo que lutava para não olhar para si mesmo.

Naquela manhã, porém, o destino resolvera colocar um espelho bem diante de seu rosto. Mauro era filho de um mergulhador profissional. Seu Renato Vieira trabalhara em diversas obras portuárias e era um homem conceituado e respeitado em todo o país. Roberto, o irmão mais velho, fora ainda mais longe: tornara-se mergulhador de saturação e trabalhava em plataformas de petróleo, motivo de orgulho para toda a família. Rodrigo, o irmão do meio — o adotivo —, também seguira a tradição familiar, tornando-se mergulhador de segurança pública no Corpo de Bombeiros. 

Mas Mauro dizia que não. Ele, não. 

— Não sou peixe para viver debaixo d’água! 

E ria. Ria alto, tentando esconder os verdadeiros sentimentos: o medo de fracassar, de nunca ser tão bom quanto o pai ou os irmãos. Tinha medo de ser visto como realmente era, despido de todas as máscaras.

Por dentro, era um homem corroído pela inveja. Morria um pouco cada vez que Rodrigo se destacava ou quando Roberto era aplaudido.  

Bem, eu disse que Rodrigo era o filho adotivo?  

Mentira. Na verdade, o adotado era Mauro. Aos seis anos de idade, fora entregue pela mãe à família Vieira. Talvez por isso carregasse tanta amargura. Talvez por isso fosse incapaz de amar alguém. Mentia. Traía todas as mulheres com quem se relacionava. Parecia querer vingar-se, em cada uma delas, da primeira mulher que o abandonara: a própria mãe.  

Naquela mesma manhã, durante o café, algo muito triste acontecera.  

Semanas antes, Mauro falsificara a assinatura do pai para solicitar um empréstimo bancário. Precisava pagar dívidas de jogo. Quando Roberto recebeu, por e-mail, a confirmação da operação, o dinheiro já havia sido depositado na conta de Mauro. Ainda naquela manhã, quis saber o que havia acontecido.
— Nem sabia que esse dinheiro estava na minha conta. Provavelmente o velho gagá fez alguma coisa errada. 

A falta de respeito com o pai fez Roberto avançar na direção do irmão. Antes que pudesse alcançá-lo, a voz ainda firme do velho Renato encheu o ambiente.
— Parem! — Disse isso olhando para Mauro com os olhos marejados.
— Mauro tem razão. Foi uma confusão que eu fiz. 

O ancião levantou-se em silêncio e caminhou em direção ao quarto. Ainda ouviu Rodrigo dizer:
— É só devolver o dinheiro para a conta do papai.

Sem se virar, Renato respondeu:
— Não precisa. Eu dei esse dinheiro para ele.

Roberto e Rodrigo apenas se entreolharam.
— Mauro!  

A voz do locutor o trouxe de volta à realidade. Era chegada a hora da apresentação. Ele caminhou lentamente até a prancha, a três metros acima da superfície da água. Lá embaixo, o espelho d’água devolvia a sua imagem que se deformava a cada pequeno movimento. O reflexo criava figuras monstruosas, quimeras, rostos desfigurados. Não era a água que o distorcia; era sua própria alma obscura. A imagem refletia o ego corrompido, a escuridão que carregava dentro de si.  

Mauro fecha os olhos e salta em um mergulho profundo, vai de encontro aos seus próprios demônios.