Pela primeira vez, Eudora tentava olhar para dentro. E não era uma escolha, era uma necessidade, recomendações médicas. Eudora andava perdida, reclusa, melancólica, sem vontade de viver.
A vida toda seguiu uma engrenagem que lhe foi apresentada, imposta: os exemplos das mulheres que vieram antes. Aprendeu a obedecer, sem questionar. E para se sentir aceita, talvez amada e um pouco interessante, precisava fazer parte daquela realidade que conhecia. Desde cedo aprendeu a doar, a cuidar dos outros e a depender da aprovação alheia.
Até que um dia, Eudora acordou depois de algumas sessões de terapia e descobriu que havia uma cratera na alma; que não sabia quem era e do que realmente gostava. Sentiu um frio na barriga. Não seria tarde demais?
Eudora foi uma pessoa que sempre mergulhou fundo quando o assunto não era dela. Não tinha medo de se afogar nas demandas da família, dos filhos, do marido, dos amigos. Precisava ajudar. Era seu papel, pensava. Às vezes, sentia-se até, de certa forma, poderosa.
Agora, não sabia o que fazer… A vida parecia sem sentido, ninguém mais precisava dela. Estava só. Mergulhada em seus pensamentos confusos, queria fazer algo que lhe trouxesse motivação e que lhe preenchesse aquele buraco enorme. E num momento de lucidez, concluiu: estava na hora de aprender a cuidar de si.
No entanto, aquela sensatez era temporária e fugaz, do mesmo jeito que vinha, ia embora aplacada pela tristeza e solidão de si mesma.
Então, imersa numa dor profunda, resolveu caminhar a ermo. Caminhou, caminhou… O entardecer foi chegando, o pôr do sol trouxe uma lua linda. Eudora viu a lua tão sublime, sentiu vontade de senti-la mais de perto. Subiu num penhasco. Olhou para baixo, viu a lua no mar. Quis tocá-la. Desequilibrou-se e segurou-se num arbusto. Abaixou-se e viu seu reflexo na água. Quem era aquela mulher? Precisava conhecê-la. Precisava salvá-la. Precisava renascer…
E de repente, em seu delírio, inundou-se por uma paz e por uma certeza de que agora sabia o que queria. Respirou fundo, esticou os braços e saltou num mergulho profundo.





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