repartir pão

Lei do retorno

Elton olha a lata vazia. Rolara a pequena ladeira e parara ali, próximo ao seu amontoado de coisas. Ele pega a embalagem, olha com curiosidade. Talvez tivesse alguma rapa, sobra. Claro que era só uma vontade enorme de acreditar… A lata nem era de algo comestível… de óleo diesel, talvez.

Pedrinho acompanha a cena, compadecido. Olha para o avô e pergunta:
— Posso dar o meu lanche para ele, vô?

Seu Paulo olhou para o neto e diz:
— Não acho uma boa ideia, Pedro. O seu lanche não vai resolver o problema dele e, ao invés de um, teremos dois com fome.
— Mas ele está com fome, vô!
— Sim, mas nem toda fome é de comida! Muitas vezes, a fome do outro é da sua luz! Não adianta alimentá-lo com o seu pão…

Elton leva a mão à barriga. A fome já nem doía mais. O que doía era a alma. A fome que o atravessava como uma lâmina não cessava com pão. A miséria que consumia a sua existência não se deixava aplacar com um prato de sopa quente. Elton olha a multidão passando, apressada em seus destinos, com a urgência de chegar a algum lugar. Correndo… Sempre correndo atrás do pão, do teto, da sopa quente. Talvez por isso não sentissem a miséria que lhes atravessava a própria alma. Talvez por isso só eram capazes de perceber a fome que lhes doía o estômago.

Elton arrasta a muleta para próximo de si. Logo alguém chegaria para dar um pouco de café, um chocolate quente. Mas ninguém consegue lhe dar afeto. Ninguém consegue lhe ofertar amor. Mas a culpa não é dos outros; a culpa não era de ninguém…

Elton lembra de Rosa. Sorri amargo. Rosa queria alimentar sua alma, lhe ofereceu um banquete com o melhor de seus sentimentos, mas ele simplesmente a traiu. Em um dia qualquer, por um motivo qualquer, lhe desferiu uma punhalada em suas costas e aí se saciou, brindou com sangue e se alimentou de uma dor que não era a sua.

Remorso, talvez… um pouco. Melhor não pensar. Embora ela lhe tivesse dado amor, ele só tinha dor para lhe ofertar. Era como uma serpente que pica a mão que o alimenta. E não é porque é mau… é porque a dor do outro é o único alimento que o sacia.

Justificativas? Um leque: foi doado quando bebê, rejeitado quando criança, humilhado quando adolescente, traído quando apaixonado, roubado quando confiou.

E isso o transformou… O demônio o demonizou.

Hoje é a fome da alma que o pune.

Hoje é a miséria do espírito que o define.

Porque só quando o dinheiro, o status, a aparência, a vaidade, as pernas, os braços, deixam de ocupar espaço é que o ser humano se vê obrigado a encarar as sombras que existe dentro de si.