Os sapatos cinza de Leocádio combinavam com sua vida. Aos quarenta anos, tinha uma rotina cinzenta: acordar, banho, café, arrumar-se, trabalho. Volta do trabalho, outro banho, fazer algo pra comer, vídeo no celular, curtir algo de algum amigo digital e cama. O fim de semana só se diferenciava por conta do futebol na TV ou algum documentário. Não tirava férias há uns quatro anos. Dinheiro ele tinha. Soubera economizar desde cedo. Não era um tremendo investidor, apenas mantinha sua poupança para os dias de velhice ou necessidade extrema. Isso ainda não tinha acontecido.
Leocádio não prestava atenção ao trivial e nem a algo incomum. Ele não estava triste ou chateado, estava anestesiado. Sabia sobreviver, mas tinha esquecido de viver. Os minguados amigos, na verdade, eram só colegas de trabalho que, encerrado o expediente, também se encerravam as frívolas conversas.
Em uma terça-feira chuvosa e um pouco mais fria (a diferença para Leocádio foi apenas na questão do guarda-roupas), é que seu carro seminovo parou do nada. Ligou para o guincho que veio buscar o veículo e levá-lo ao mecânico. Leocádio seguiu a pé, cortando caminho por ruelas que nunca tinha entrado, tentando não chegar atrasado. Mas foi aí que o cheiro o pegou. Aquele aroma de café recém coado e pão saindo do forno. Engraçado – pensou – já tinha tomado café, por que essa vontade de seguir o cheirinho apetitoso? Mas o estômago roncou mesmo assim e Leocádio pensou em chegar atrasado no trabalho, coisa inédita.
Seguindo o rastro, ele parou diante de um pequeno bistrô com fachada colorida. Num quadrinho desses da moda, escrito com giz dizia: Hoje: Fome de Viver. Curioso e empurrado pelo frio, Leocádio abriu a porta de vidro fumê. O lugar era pequeno, decorado com mapas antigos e novos, papéis que pareciam cartas escritas à mão e fotografias de paisagens distantes. Atrás do balcão, uma mulher de cabelos brancos, olhos intensos e sorriso convidativo o esperava:
— Mesa para um? — perguntou ela.
— Sim, por favor. Qual a especialidade da casa? Não entendi o anúncio lá fora.
— Ah, Fome de Viver! Sente-se! Esse é nosso menu experimental. Vai além do paladar… — Ela fez mistério.
Trouxe, em uma bandeja, uma concha de tamanho razoável, uma pequena revista e uma caixinha. A mulher apontou a concha e disse:
— Esta é a entrada, mas não coloque na boca e sim próximo ao ouvido.
Leocádio, curioso, fez o que lhe era pedido e escutou o barulho do mar, mas não qualquer mar. O engraçado é que sua memória o levou há dez anos antes, e ele pôde ouvir o barulho das ondas da praia que tinha ido com a única namorada séria que tivera. Tinha sido um dia memorável, conversaram, namoraram e acabaram ficando quase uma semana numa aconchegante pousada. Ela era a única que o chamava de Léo…Depois, a coisa foi esfriando, esfriando, até que sumiu da lembrança. Culpa dele. Seu estômago doeu…
Olhou para a senhora que, seriamente, lhe disse:
— Agora, por favor, pegue o prato principal — indicando a revistinha…
Não era uma revistinha, era um pequeno guia de viagem que Leocádio, com surpresa, percebeu ser da cidade onde estava a praia que explodira em sua memória. Logo de cara, uma reportagem sobre a pousada que ficara. Prendeu a respiração com a entrevista da nova dona da pousada que dizia tê-la comprado porque tinha lembranças felizes de lá. Solteira e começando a prosperar, a fotografia sorridente da dona, seu antigo amor, conversava com ele. Olhos rasos d’água, o coração enferrujado doía ao ser convocado a despertar. Agora seu estômago agonizava.
Mal havia fechado a revista, a gentil senhora falou com suavidade:
— Não esqueça a sobremesa.
Leocádio abriu a caixinha e lá, simplesmente, um biscoito da sorte. Léo, com as mãos trêmulas, o partiu. Dentro, a frase: “O amor e a vida são muito curtos, só nos resta prolongar o seu sabor”.
— Mas o que significa isso. Que menu é esse?
— Este não é um prato que se cozinha no fogão, meu jovem. Cozinha-se na alma e serve-se na vida. É a lembrança do tempero que a gente esquece de colocar em nossos dias. A fome de viver só pode ser saciada vivendo e quem prepara o cardápio é você.
Olhando mais uma vez para a bandeja com os “pratos” a sua frente, Léo se põe de pé meio trôpego, afinal, precisava reaprender a devorar a própria vida, e pede:
— A conta, por favor.
— O pagamento aqui é diferente — explicou a mulher. — Você paga com uma carta escrita à mão. Escreva contando como foi degustar nosso cardápio e como está sendo a experiência no pós-venda. Depois colocamos ali. E apontou para uma parede repleta delas. Leocádio sorriu como não fazia há tempos. Agradeceu.
Saindo do estabelecimento, só foi possível ouvir sua ligação pro mecânico dizendo:
— Aproveita e checa óleo, freios e troca o que precisar pra uma viagem segura….sim, vou viajar….pra onde? Pra vida!





O mais estranho é que a leitura levou-me caminhar junto com a personagem. Me percebi faminta… Um conto que na verdade é um lindo convite. à vida