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A fome de existir

Tinha que sair. Mesmo com o coração apertado e o nó na garganta, precisava seguir em frente, caminhar em direção à porta sem olhar para trás. 

A vida dependia dela, apenas dela. 

Ali estavam seus rebentos. Ela era como um pássaro que saía em busca de alimento para nutri-los. A luta não era fácil, e a distância que a separava deles era grande demais. Eram horas de viagem até chegar a um lugar que lhe garantiria algum sustento. Saía ao pôr do sol e só voltava ao amanhecer. 

Ao abrir a porta, cansada e, muitas vezes, sem ter comido nada, ainda assim sorria ao vê los bem. Em suas mãos, trazia sobras que ganhava em saquinhos de plástico. Arrumava a pequena mesa capenga e, nos pratinhos, dividia as porções: arroz, farofa, pedaços de frango, macarrão e, em uma garrafinha de plástico, um suco que tinha cor de morango, mas quase nenhum gosto. 

E assim suspirava, aliviada. Era mais um dia vencido e digno de agradecimento. 

O dinheiro que arrecadara em suas noites apenas dava para o básico: arroz, feijão, ovos e pães. Havia dias em que dividia um ovo entre os três filhos e, quando isso acontecia, seu semblante caía e seu coração doía, pois sabia que eles sentiriam a dor da fome. 

Para ela, não era apenas a fome que corroía o estômago. Existia também a fome de visibilidade. 

Não era apenas a ausência de nutrientes necessários ao desenvolvimento das funções vitais. Era fome de existência, de valor, de direitos básicos, de condições dignas de vida, de oportunidades e de bem-estar social. Ambas produziam feridas cujas cicatrizes seriam marcadas como um ferrete por toda a vida. 

E ela olhava para seus filhos… 

Eram apenas crianças… 

Ainda inocentes e frágeis, não entendiam nada. Apenas esperavam ali no ninho, assim como os filhotes dos pássaros, com os bicos abertos à espera do alimento, para que, num futuro próximo, pudessem voar.