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F.O.M.E.

Fortuna. Ócio. Mulheres. Êxtase. Esses eram os quatro objetos da fome insaciável de Mário. Por mais que os tivesse em abundância, nunca estava satisfeito. 

A fortuna era herança, não trabalhou um dia sequer na vida. Embora possuísse confortáveis salas em cada uma das empresas de sua família, sempre deixou a condução dos negócios para os outros. Não havia motivos para se preocupar com dinheiro, jamais faltaram recursos para nada que quisesse fazer. 

Isso leva ao segundo item da lista: ócio. Gostava muito de se ocupar em ser desocupado. Festas, viagens, passeios… E, é claro, horas diárias nas redes sociais, onde seus milhares de seguidores podiam acompanhar sua ostentação, intercalada com publicações sobre temas como: meritocracia, as graves consequências para a economia do avanço de direitos trabalhistas (como o fim da escala 6×1), a dificuldade do homem branco, macho, nos dias de hoje, para poder fazer piadas livremente, nessa época de tanto mimimi. 

As mulheres eram o terceiro objeto da lista. Sim, era assim que Mário as enxergava. Colecionava ex-namoradas, ficantes e outras tantas de uma noite só. É claro que jamais aceitava não como resposta. Duas ou três vezes foi acusado de ser violento, mas se considerava apenas um homem decidido.

Êxtase. Era profundamente devotado a tudo que lhe proporcionava prazer. Isso traz as mulheres de volta à lista, mas não só: comida, bebida, outras drogas, nada era ilícito quando se podia pagar. Acreditava que tudo tinha seu preço e que as leis não tinham sido feitas para pessoas como ele. 

A mãe de Maria sempre foi empregada da família de Mário. Ainda adolescente, ela também começou a trabalhar lá. Quando ele fez dezoito anos, Maria já tinha vinte e cinco e, às vezes, dormia no trabalho. O rapaz chegou em casa na madrugada e invadiu o quarto da jovem. Mário a proibiu de contar o que aconteceu. Não só ela perderia o emprego, como sua mãe, já com mais de sessenta anos, também seria despedida e ficaria desamparada. 

Os anos se passaram. O crime aconteceu mais duas ou três vezes. Depois o patrão nunca mais a violentou, resolveu deixá-la em paz. Tinha muitas outras mulheres para importunar. 

Mesmo quando os pais de Mário morreram, Maria continuou trabalhando em sua casa. Limpava, cozinhava, sabia cada um de seus pratos preferidos, suas sobremesas mais apreciadas. Silenciava as próprias dores, enquanto gastava horas diárias no trem que vinha de Japeri e depois no metrô, até chegar à Zona Sul. 

Seu orgulho era Lidiane, que já estava com dezessete anos e tinha acabado de passar para a faculdade. Um dia, quando estava trocando mensagens com a filha, Mário passou e viu a foto:
— Lidi está bonitona, hein, Maria? Diz a ela que pode vir aqui em casa, tomar um banho de piscina. Será muito bem recebida. 

Por um breve instante, a trabalhadora responsável, a mãe zelosa, pôde encarar o olhar de lascívia daquele homem repugnante, um olhar que conhecia muito bem e do qual julgou que tinha se livrado. Seus olhos marejaram, mas ela seguiu seus afazeres. 

Naquela noite, o jantar do patrão estava especialmente caprichado. Mário ficou incrivelmente satisfeito, porque aquela droga nova havia realmente lhe deixado com bastante apetite. Após o bobó de camarão divino, deliciou-se com um maravilhoso pavê de Sonho de Valsa:
— Maria estava ficando velha, mas sabia mesmo das coisas.

Ele ainda trazia esse pensamento em mente, quando começou a se sentir diferente. Logo seus olhos começaram a revirar e uma farta espuma branca lhe escorreu pela boca. O coração acelerou bruscamente, até que parou de bater.

Enquanto voltava para casa, Maria lembrou de seus amigos, vendedores ambulantes, que só vendiam produtos da melhor qualidade. O chumbinho deles, realmente, não falha nunca. Mata o rato e seca o rato!