Ela era gulosa, intensa mesmo. Mas eram tantos os afazeres durante o dia que mal parava para comer. Porém, no silêncio da noite, quando tudo se acalmava, vinha uma fome! E não era aquela entre o café da manhã e o almoço, era um apetite além da imaginação.
Mas ela tinha fome de quê? Levantou-se do sofá e foi até a geladeira, olhou, nada lhe agradou. Bebeu água, podia ser sede. Pegou um livro, um romance romântico e uma barra de chocolate ao leite, seu preferido. Depois ligou o rádio baixinho na JB FM e foi tentar dormir. Por coincidência ou não, começou a tocar “Comida” dos Titãs. Então, sua fome voltou e começou a fritar-lhe os pensamentos. Foi até a dispensa, pegou um biscoito, comeu a metade, não era fome de comida.
Voltou para a cama vazia. O marido havia chegado há pouco e assistia TV. Ela não quis incomodar. Já o conhecia bastante, sabia de sua rotina. Só viria pra cama mais tarde. Caso não adormecesse no sofá mesmo. Ultimamente, eles pareciam o sol e a lua.
Conformou-se e chamou Ixtlan, um homem visível só pra ela. Trocaram carícias até que ela relaxou e adormeceu.
De repente, Maria sobrevoava por montanhas, e tudo era tão lindo e verde e libertador. Nas árvores, lá embaixo, ao invés de frutas, havia trufas de chocolate. Tudo era tão surreal! Sobrevoou uma casa de campo, parecia a de sua infância, sentiu vontade de descer. Mas não, preferiu seguir em frente. Seguindo, viu a cidade pequenininha, desceu um pouco e avistou nas calçadas, sob os viadutos, espécies que se movimentavam à caça de comida nas lixeiras ou se escondiam nos escombros. Pareciam bichos, pareciam ratos gigantes, mas eram pessoas. Que triste! Impressionada, quase caiu. E num susto, já se viu em outro lugar. Dessa vez, numa discoteca.
Lá dançou a noite toda, bebeu, comeu, namorou, riu, se divertiu como há muito tempo não fazia. Mas, de repente, lembrou que tinha filhos, marido que precisavam dela. Correu, pegou o carro de volta para casa. Desesperada, bateu com o carro na parede de sua casa, fazendo-a acordar sobressaltada.
Levantou-se e foi até o quarto das crianças conferir se estava tudo bem. Não tinha criança nenhuma, elas haviam crescido. Foi à sala, o marido dormia no sofá.
Na esperança de que as coisas pudessem melhorar, pulou sobre ele e começou a beijá-lo:
— O que foi mulher? O que deu em você? Me assustou.
— Desculpa, meu bem, mas de repente me deu uma fome de você. Vamos para a cama.
— Você já viu as horas? Já passamos dessa fase, mulher, me deixa dormir, estou exausto.
A mulher se afastou subitamente, foi ao banheiro, lavou o rosto. Olhou-se no espelho, nenhum hematoma no pescoço fazia tempo, nenhum gosto de beijo na boca também fazia tempo. Algumas linhas de expressão já marcadas na pele, uns poucos fios de cabelos brancos que reluziam dando até um certo charme, o botox em dia. Ainda era bonita. Secou ao lágrimas que teimosamente escorriam, respirou fundo. Então descobriu do que ela tinha fome. E quem tem fome, tem urgência. Se arrumou toda linda e aguardou ansiosa o dia clarear.
Quando o marido acordou, ela estava em pé, próxima à porta de saída com uma mala em punho, a observá-lo no sofá:
— O que foi, mulher? Onde vai?
— Não sei, talvez ao encontro de mim mesma, talvez tentar saciar a minha fome de viver que ainda grita dentro de mim, mas dou notícias.
Fechou a porta e saiu. O homem ficou como estátua por alguns instantes:
— Que louca, não fala” lé com cré”! Achou que tinha tido um pesadelo, virou para o lado, voltando a dormir.





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