Maria Cristina, desde criança, sempre foi faminta. Parecia que tinha um grande buraco dentro dela que não conseguia preencher.
Seus pais, muito atentos às suas menores necessidades, enchiam a menina de carinho e vontades. Ela teve acesso a absolutamente tudo que uma criança precisa para crescer saudável e feliz. Mas, para ela nunca bastou. Ela tinha esse vazio que não conseguia preencher e compreender por que existia. Terapias, psiquiatras, tratamentos espirituais, nada explicava o que Maria Cristina costumava nomear de o “Grande Buraco Interior”.
Achou que talvez fosse falta de amor romântico, e até namorou uns caras, umas meninas pois, uma pessoa faminta como Maria Cristina não queria saber o que “seus pais iam pensar”. Ela queria era se preencher. Mas, nada adiantava mesmo.
Então, ela comia. Desde comidas pesadas até as saudáveis, Maria Cristina comia como se estivesse com uma fome secular. E estava com fome sim pois, desde que se entendia por gente, sentia fome, fome, fome. Engordava a olhos vistos e ela não se importava com isso também, pois tinha dinheiro, podia comprar roupas que se adequassem ao seu cada vem mais volumoso físico.
Um dia, navegando na internet, encontrou uma espécie de “promessa de milagre” como tantas que já tinha visto. Mas, essa lhe chamou a atenção por dizer que bastava uma pílula do potinho milagroso para QUALQUER doença fosse curada. Imagina! Ela poderia se curar daquele eterno vazio que sentia somente tomando uma pílula por dia até terminar o potinho? Comprou.
Em uma quinta-feira, quando seus pais tinham o compromisso de passar algumas horas com alguns amigos jogando cartas (seus pais eram adeptos do alea jacta est – a sorte está lançada) e falando coisas de gente mais velha, Maria Cristina foi para seu quarto com o potinho do “milagre” nas mãos. Havia chegado naquele dia mais cedo e ela precisava logo se curar. Mas, esfomeada como sempre e louca para ter o seu Grande Buraco Interior finalmente fechado, Maria Cristina resolveu engolir uma a uma as trinta cápsulas.
Esvaziou o potinho, deitou na cama com uma enorme sensação de satisfação e, milagrosamente, sentiu seu vazio preenchido. Sentiu-se tão plena e pacificada que até dormiu como nunca havia dormido antes. Um sono sem fome, sem vazios e sem volta.





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