floresta desmatamento
Mining pushes through and devastates the Munduruku Indigenous Land, impacting people, rivers and the forest itself, with over 240 hectares deforested between January and April 2020, a 57% increase regarding the same period the previous year. Over 70% of all mining in the Amazon between January and April 2020 took place inside protected areas. Munduruku and Sai Cinza Indigenous Lands, home to the Munduruku people, in the state of Pará, hold over 60% of all deforestation by mining registered in all Indigenous Lands in 2020. Mining has also deforested 879 hectares inside Conservation Units between January and April 2020, an 80.62% increase regarding the same period of the previous year. O garimpo avança de modo devastador na Terra Indígena Munduruku, impactando o povo, os rios e a floresta, que foi desmatada em mais de 240 hectares apenas entre os meses de janeiro e abril de 2020, um aumento de 57% em relação ao mesmo período do ano anterior.Mais de 70% de todo o garimpo realizado na Amazônia entre janeiro e abril de 2020 ocorreu dentro de áreas protegidas. As terras indígenas Munduruku e Sai Cinza, do povo Munduruku, no Pará, acumulam, juntas, pouco mais de 60% de todo o desmatamento para garimpo registrado dentro de terras indígenas em 2020. O garimpo também consumiu 879 hectares de floresta dentro das Unidades de Conservação entre janeiro e abril deste ano, o que representa um aumento de 80,62%, comparado aos mesmos meses de 2019.  

Verde é o sangue da esperança

Mãe Cy sentia dor havia muito tempo.

Toda manhã, o som das árvores tombando atravessava a floresta como gemidos de dor. Os rios, antes cristalinos, agora carregavam uma espuma cinzenta e brilhante de mercúrio, espalhada pelos homens que cavavam a terra em busca de ouro. Peixes boiavam mortos. Animais fugiam. O ar cheirava a fumaça e metal.

Os invasores haviam chegado meses antes. Construíram alojamentos com troncos arrancados da mata e abriram feridas profundas no solo. Riam alto enquanto a floresta sangrava em silêncio.

Mãe Cy era a própria natureza.

Seu sangue era verde, escorria das árvores cortadas, das folhas queimadas, dos rios contaminados. Cada golpe de machado abria uma nova chaga em seu corpo antigo. E ela já não suportava mais.

Numa noite de lua vermelha, o tuxaua da tribo Akuntsu despertou com o vento chamando seu nome. Caminhou até a margem do rio e viu surgir das águas uma mulher de longos cabelos feitos de cipós e olhos brilhantes como musgo molhado.

— Estão me matando — disse Mãe Cy, com a voz triste — Se continuarem, não sobrará rio para beber, nem floresta para respirar.

O tuxaua ajoelhou-se diante dela. Na manhã seguinte, os guerreiros da tribo pintaram o corpo com urucum e jenipapo. Empunharam arcos, lanças e a coragem herdada dos antigos. Avançaram pela mata em silêncio, guiados pelo próprio coração da floresta.

O confronto foi rápido e feroz.

Os invasores, acostumados a ferir a terra sem resposta, não esperavam que ela lutasse de volta. Muitos fugiram assustados. Outros caíram durante a batalha, feridos pelas próprias armas e pela mata que parecia se mover contra eles.

Quando tudo terminou, a chuva começou. O sangue vermelho dos homens derramado no chão misturou-se ao sangue verde de Mãe Cy, espalhado entre raízes partidas e troncos destruídos. A terra absorveu aquele líquido estranho em silêncio profundo.

Então, algo aconteceu. Pequenos brotos começaram a surgir do solo. Primeiro tímidos, depois fortes. Cipós cresceram sobre os barracos abandonados. Flores nasceram onde antes havia lama. Em poucas horas, novas árvores erguiam-se em direção ao céu, como se a floresta respirasse outra vez.

O tuxaua observou em silêncio.

A natureza não esquecia.

Mas ainda sabia renascer.