Mãe Cy sentia dor havia muito tempo.
Toda manhã, o som das árvores tombando atravessava a floresta como gemidos de dor. Os rios, antes cristalinos, agora carregavam uma espuma cinzenta e brilhante de mercúrio, espalhada pelos homens que cavavam a terra em busca de ouro. Peixes boiavam mortos. Animais fugiam. O ar cheirava a fumaça e metal.
Os invasores haviam chegado meses antes. Construíram alojamentos com troncos arrancados da mata e abriram feridas profundas no solo. Riam alto enquanto a floresta sangrava em silêncio.
Mãe Cy era a própria natureza.
Seu sangue era verde, escorria das árvores cortadas, das folhas queimadas, dos rios contaminados. Cada golpe de machado abria uma nova chaga em seu corpo antigo. E ela já não suportava mais.
Numa noite de lua vermelha, o tuxaua da tribo Akuntsu despertou com o vento chamando seu nome. Caminhou até a margem do rio e viu surgir das águas uma mulher de longos cabelos feitos de cipós e olhos brilhantes como musgo molhado.
— Estão me matando — disse Mãe Cy, com a voz triste — Se continuarem, não sobrará rio para beber, nem floresta para respirar.
O tuxaua ajoelhou-se diante dela. Na manhã seguinte, os guerreiros da tribo pintaram o corpo com urucum e jenipapo. Empunharam arcos, lanças e a coragem herdada dos antigos. Avançaram pela mata em silêncio, guiados pelo próprio coração da floresta.
O confronto foi rápido e feroz.
Os invasores, acostumados a ferir a terra sem resposta, não esperavam que ela lutasse de volta. Muitos fugiram assustados. Outros caíram durante a batalha, feridos pelas próprias armas e pela mata que parecia se mover contra eles.
Quando tudo terminou, a chuva começou. O sangue vermelho dos homens derramado no chão misturou-se ao sangue verde de Mãe Cy, espalhado entre raízes partidas e troncos destruídos. A terra absorveu aquele líquido estranho em silêncio profundo.
Então, algo aconteceu. Pequenos brotos começaram a surgir do solo. Primeiro tímidos, depois fortes. Cipós cresceram sobre os barracos abandonados. Flores nasceram onde antes havia lama. Em poucas horas, novas árvores erguiam-se em direção ao céu, como se a floresta respirasse outra vez.
O tuxaua observou em silêncio.
A natureza não esquecia.
Mas ainda sabia renascer.





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