parque play city

Um tempo sem tela

— Dona Alzira! Dona Alzira!
— Já vai! Quem é?
— Sou eu, Fatinha.
— Chegou cedo hoje? Já fez o dever de casa?
— É, cheguei cedo porque tinha pouco dever e eu sabia fazer tudo sozinha, nem precisei de ajuda. Taninha já terminou o dela?
— Ainda não, vai lá, ajuda ela pra vocês poderem brincar. E sua mãe?
— Mamãe está terminando uma costura e vai preparar o jantar. Ela disse que se sobrar um tempinho vem aqui pra conversar com a senhora.
— Que bom! Quando ela fala assim já sei que ela vem. Vou colocar mais uma cadeira na calçada e fazer uns bolinhos de chuva para tomarmos o café da tarde.  Vai lá dentro ver a Taninha.
— Dá licença.
— Falta muito, Taninha?
— Oi, Fatinha, estou acabando. Vamos brincar de que hoje?
— Se a turma vier a gente brinca de queimada ou pique-lata.
— Prefiro pique-lata! Mas se não vier todo mundo vamos andar de bicicleta? Aí eu pego a bicicleta da titia, eu dou uma volta e depois você vai.
— Mas eu tenho medo de andar nela. Eu fico toda torta por causa daquele ferro no meio e pra sentar no selim eu não alcanço.
— Ah, deixa de ser medrosa. E logo, logo você vai ganhar uma.
— Papai disse que se eu passar de ano vai me dar uma no Natal.
— Pronto, acabei! 

E assim passávamos nossos dias. Íamos para escola, fazíamos o dever de casa e corríamos para brincar na rua com as meninas e meninos da vizinhança, quase todos da mesma idade. O ponto de encontro era em frente à casa da dona Alzira, que era vizinha da vovó, na rua Santa Rosa. A brincadeira “rolava solta” até não aguentarmos mais de cansaço, ir pra casa tomar banho, jantar e dormir. No dia seguinte era tudo de novo.

Nos fins de semana era diferente. Quando sobrava um dinheirinho papai nos levava para algum passeio no centro de Nova Iguaçu. Como morávamos em Austin, mamãe me arrumava como se eu fosse para uma festa. Chinelo, nem pensar! Na ida, íamos de trem. 

Meus lugares favoritos eram a Praça Santos Dumont e o Parque Play City. Na praça tinha coreto, chafariz, um avião bem no meio e agente andava de “bodinho” que era  uma charretinha puxada por bode. Também tinha viveiros de pássaros e até jacaré num laguinho. Do canhão eu tinha medo, nem chegava perto. Talvez fosse intuição de criança que não tinha noção dos tempos difíceis e da manipulação do poder autoritário sobre a  população naquela época. Coisas que a inocência infantil não percebia.

No parque, meus brinquedos favoritos eram o carrinho bata-bate, a roda gigante e o trem fantasma. Mamãe sempre ficava brava porque eu e Taninha nos lambuzávamos de algodão doce e maçã do amor e a roupa ficava toda melada. 

Na volta, voltávamos de ônibus, “mortas” de cansadas de tanto brincar. Enfim, bons tempos sem tela.