O ano era de 1979, quando conheci Cristina no Bairro da Prata em Nova Iguaçu. Uma paixão arrebatadora, daquelas de juventude, daquelas que o coração bate mais forte, as pálpebras se abrem com mais frequência para mostrar que a menina dos olhos concorre pau a pau com o brilho das estrelas. Nos vemos todos os dias, mas Cristina é de família muito tradicional. Os encontros (amorosos) aconteciam somente nos finais de semana: sábado em minha casa, com supervisão de minha querida mãe e no domingo na casa dos seus pais era de 19h às 22h. Isso mesmo. Em 1979 era assim: quando a musiquinha do Fantástico, “o show da vida”, se fazia presente, era a hora do beijo da despedida. Mas nesta fase da vida as paixões vêm e vão. Quando você pensa, é essa, aparece outra. Cristina parecia a paixão perfeita. Nosso final de ano foi um dos melhores que tive, realmente espetacular. E o mês de janeiro tinha tudo para mudar nosso relacionamento para melhor, é claro. Mas não foi o que aconteceu. Antes do final do ano, meu patrão, que era um médico conceituado, fez treze pontos na loteria. Não deu muito dinheiro, pois tiveram muitos ganhadores, mas eu lhe dei dois palpites que lhe valeram os treze pontos e com isso fui recompensado. Não ganhei muito, mas comparando com o meu mensal, era bastante. Comuniquei Cristina, que ficou muito feliz quando falei que pediria seus a seus pais para ficarmos noivos. O dinheiro das alianças estava garantido. Minha mãe me passou um sermão sobre os problemas de um relacionamentos tão prematuro ficar sério, mas disse que a decisão seria minha e que me apoiaria qualquer que fosse. Mas os pais de Cristina disseram que não era a hora. Ficamos tristes, mas seguimos em frente.
No dia 03/01/80 eu passo na banca e compro o Jornal do Brasil. Era uma rotina semanal do chefe: ler minuciosamente suas páginas no decorrer das horas vagas e depois fazer o descarte, me oferecendo as informações por ele já consumidas. Agradeço, já é hora de ir embora. Ao abrir a página de shows, está escrito que, devido às fortes chuvas no Rio, Frank Sinatra pode cancelar show no Maracanã. Era um mês difícil. Chuvas torrenciais por todo o Brasil, alagamentos, inundações. Fico apavorado. Eu nem sabia que o Frank (desculpa a intimidade) estaria no Brasil, muito menos no Rio. Eu ouvi aquela voz na JB FM, que era a rádio que perpetuava no trabalho. Eu chegava às nove, colocava na rádio Mundial, quando a campainha tocava três vezes eu colocava na JB. O patrão estava chegando. Aprendi mais tarde que ele estava certo. Passei a acompanhar as notícias.
No dia seis de janeiro, um domingo, estávamos na varanda quando o Fantástico anunciou Frank Sinatra. Pedi a Cristina para assistir. Ela relutou muito e disse “nunca vi esse homem, não entendo nada do que ele canta.” Sorri meio sem graça e concordei. Naquele momento decidi que iria ao show, não tinha mais noivado. O dinheiro estava guardado, mas Cristina não iria saber. Minha mãe disse que eu deveria contar. Resolvi que não. Comprei roupa e sapato. O show estava badalado, não era meu cantor preferido até aquele momento, mas o status de falar para os filhos, netos e amigos que fui ao show do Frank Sinatra, isso era tudo. O problema era que o show seria no sábado, mas já estava resolvido. O dinheiro das alianças virou um ingresso de arquibancada para o show do Maracanã, dia 26 de janeiro 1980. Chego do trabalho na sexta, chuva torrencial, os rumores de cancelamento do show não param. Minha mãe insiste em que eu fique em casa: “Está chovendo muito, meu filho. Fica com a Cristina, é melhor.” De repente ela pergunta: “Você falou com ela?” Sem saber o que falar, eu dei a pior resposta: “Sim, mãe, falei!” Acordei no sábado com uma chuva forte. Bate o desânimo: vou ao não? Não posso deixar de ir. Eu trabalhei a semana toda com chuva, porque não posso me divertir com ela? Arrumei toda a roupa, passei minha calça e camisa, tudo pronto. Vou sair bem cedo, o Frank é pontual.
A pedido de minha mãe, fui na rua comprar uma mistura para o almoço, pois ela disse que eu teria que almoçar antes de sair. Levei uns trinta minutos. Ao chegar na esquina da rua, vi Cristina deixando minha casa. Não deixei que ela me visse. Cheguei em casa, minha mãe se encontrava no quintal tirando as poças d’água que insistiam em encher o galinheiro. Perguntei a minha mãe: “Cristina perguntou alguma coisa?” “Sim, perguntou que roupa era aquela.” “E o que você falou, mãe?” “Que era a roupa que você iria ao show do Frank Sinatra.” Minha cara ferveu. Fui até o quarto, minhas roupas não estavam lá. “Meu Deus, mãe!” “O que foi, meu filho?” “A senhora guardou minhas roupas? Não estão na cama.” “Não, filho. Não saí daqui. A Cristina só bebeu um copo de água e saiu.” Procuro pelos cômodos da casa e nada. Minha mãe grita lá de fora: “Achei.” Minhas roupas estavam todas dentro do tanque: calça e camisa. Minha mãe, desesperada mais do que eu, disse: “É um sinal para você não ficar noivo e nem ir para esse show. Essa menina já disse do que ela é capaz.” Não me deixei abalar. Fui ao guarda-roupas, peguei umas peças desgastadas pelo tempo, afinal, o Frank não me notaria com qualquer tipo de roupa. Pedi a benção de minha mãe, botei minha mochila nas costas com dois sacos de biscoito e um radinho de pilhas National, que a todo instante noticiava que o Frank cancelaria o show. Nenhum teste de som foi feito, nem ensaio com a banda. A chuva era forte, show marcado para as 21h. Frank reluta em entrar, apreensão era total. Quando o Roberto Medina (produtor) convenceu Frank a entrar no palco, eram 20h45 quando a chuva parou para ele, Sinatra (o grande Frank Sinatra), mostrar sua voz para inacreditáveis 175 mil pessoas. Em um tapete vermelho, impôs seu timbre de voz inigualável, isso oito minutos após o cessar da chuva. Sucessos como New York, New York e Estrangers In The Night (estranhos na noite). Essa com certeza foi em minha homenagem (risos). Ele esqueceu a letra e foi ajudado pelo público. Em My Way (meu caminho) um fã invadiu o palco e lhe deu um beijo no rosto, sem nenhum problema, apesar da época. Que show, que noite maravilhosa!
Encerrando com o Corcovado (de Tom Jobim) depois de 75 minutos de show no dia em que Frank Sinatra me fez esquecer de Cristina.





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