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Um amor pra sempre

Eu a conheci enquanto ela fugia de casa, de um bairro de Nova Iguaçu. Não sei se fugia pela primeira vez…penso que não. A destreza em se encolher e passar desapercebida parecia algo já testado e aprovado. Eu a olhei. Ela me olhou. Ali, aquele momento, mudaria nossas vidas para sempre.

Quem deveria lhe dar amor, carinho e proteção mal ligava pra ela. Acho até que queria que morresse. Sabe como é: no início tudo são flores, chamego, relacionamento novo pra mostrar pro povo. Depois, vem os desafios, as dificuldades, os momentos de falta de paciência. Se fosse amor, passariam pelos tempos difíceis em conjunto. Um seria parceiro do outro ao seu modo. Mas não! Ele não a amava, não dava o valor que ela merecia. E quase todos os dias que saía pra trabalhar eu a via sorrateira, buscando liberdade.

Um dia, eu peguei seu companheiro de jornada gritando com ela:
— Se quer ficar saindo, então problema seu! Não quero você mais aqui. Agora você está por sua conta!

Não acreditei! Eu devia estar ouvindo coisas… mas o camarada fechou o portão, passou a chave e nunca mais olhou na cara dela.

Ela não conhecia ninguém de verdade, nunca tinha dado intimidade pros outros. Outro cara que vivia na rua deixou que ela se aproximasse e ficasse com ele. Mas o relacionamento não durou. O homem vivia ao léu, céu aberto e muros invisíveis. Não estava preparado para cuidar nem de si, que dirá de outro alguém. Até deixar que ela apanhasse, ele deixou!

Naquele dia não aguentei, abri meu portão, minha casa, minha vida e perguntei de forma muda se ela me aceitaria. Ela me aceitou.

Foi um relacionamento de quatorze anos bem vividos. Cada uma cuidava da outra. Quando todos saíam para seus compromissos era ela quem continuava na cama, ao meu lado, velando meu corpo e minha alma contra a doença que me maltratava. Devo, em parte, minha saúde a ela.

Foi mãe sem poder gerar. Seu filho aprendeu a ser quem é graças aos exemplos que ela passava com amor. Ele até te remoçou, dando mais luz ainda para nossos dias juntos.

Mas o que o tempo dá, o tempo tira. Foi tirando sua energia, sua saúde, seu vigor… mas seu olhar penetrante, seus olhos brilhantes nunca perderam o viço da vida. Nem mesmo com o coração falhando perdia sua pose de rainha do lar.

Os médicos foram taxativos:
— Ela tem endocardiose e bloqueio atrioventricular já avançado. Por isso ela não tem mais tanta vitalidade nos afazeres diários. Infelizmente, mesmo com os remédios, não tem mais que um ano de vida.

Do jeito dela, riu do prognóstico. Viveu mais três anos com qualidade de vida exemplar. Quando descobriam sua idade e seus problemas de saúde, ninguém acreditava:
— Mentira! Não parece!

E alguns invejavam nosso relacionamento tão longevo e feliz.

Até que o tempo realmente cobrou sua benevolência. Internada às pressas numa sexta-feira treze, parecia que não voltaria pra casa… mas melhorou abruptamente e saiu da internação no dia seguinte para a felicidade de toda a família.

Sabe aquela melhora repentina, aquela que parece milagre? E foi!.. Milagre que permitiu sua volta da casa para poder se despedir de todos, um por um, com seus olhos brilhantes…

Meu relacionamento físico com a cadela Branquinha terminou num domingo, dia quinze. Seu filho postiço de sete anos, de nome Perdido, está rondando a casa e me questiona com interrogação muda nos olhos a que respondo:
Ela está com Francisco de Assis e um dia a gente vai se ver de novo. Por enquanto a gente mantém nosso relacionamento com ela na lembrança e no coração, tá?