1970 – Belford Roxo – Quarto distrito de Nova Iguaçu
Bairro das Graças
Ubiratã: jovem indígena, 25 anos.
Primeira relação
Ubiratã olha do alto do velho morro e suspira cansado. Já havia dado voltas e voltas em toda aquela região e não via nenhum dos sinais marcados pelos seus ancestrais no mapa.
Ubiratã olha o céu… Logo, logo o sol iria se pôr. Ele começa a descer a colina desanimado. Uma placa dizia Belford Roxo. Ele lembra de ter lido Nova Iguaçu em algum outro lugar. Tudo muito confuso… Seus bisavós falavam de um rio de enguias, de um céu de plumagens brancas, de um brejo de lamas que engolia os homens pelos pés… Mas tudo que vira fora mato, construções irregulares, um povo sofrido, misturado a nuvens de poeiras vermelhas.
Ubiratã é um jovem engenheiro formado pela USP – Universidade de São Paulo, apaixonado pela história de seus ancestrais, os Jacutingas, povos originários, oriundos dos Tamoios e Tupinambás, que ocupavam toda a extensão do Rio Sarapuí.
Ele cresceu ouvindo seus pais e avós falarem do Olho de Pedra, um amuleto sagrado que ficara enterrado no chão da grande aldeia que ocupava aquele lugar antes do século XV.
1970 – Belford Roxo – Quarto distrito de Nova Iguaçu
Estação de trem – Centro de Belford Roxo
Segunda relação
Ubiratã caminha apressado em direção à estação. Temia perder o horário da composição. Resolve dar uma corridinha… e desatento dá um encontrão com Maria Rosa.
Maria Rosa: mestiça, 22 anos, filha de Dona Benedita e Seu Joaquim.
Maria Rosa olha, sem jeito, para aquele moço bonito que, desesperado, tentava catar suas mercadorias do chão. Na verdade, ele derrubara seu tabuleiro de cocadas e, por mais que recolhesse, não teria o que fazer. Naquele fim de tarde, Ubiratã perdeu o trem e Maria Rosa as vendas, mas… não pareceram se importar. Ubiratã acompanhou Maria Rosa até o estabelecimento de seu pai, a Padaria do Portuga Joaquim. Conheceu também Dona Benedita, uma negra retinta, mãe de Maria Rosa e de Carlos Martins. Carlos Martins: negro, 30 anos. Liderança política, ativista e impulsionador de movimentos populares em prol da emancipação de Belford Roxo.
1975 – Belford Roxo – Quarto distrito de Nova Iguaçu
Centro – Igreja Nossa Senhora da Conceição
Terceira relação
Maria Rosa, linda! Vestida em véu e grinalda! Ubiratã, ao altar, treme como uma vara verde.
1979 – Belford Roxo – Quarto distrito de Nova Iguaçu
Bairro: Areia Branca – Residência do jovem casal Ubiratã e Maria Rosa.
Quarta relação
A parteira sai do quarto do casal com o pequeno bebê entre os lençóis. Coloca-o no colo de Ubiratã, dizendo: — Seu filho nasceu!
1985 – Belford Roxo – Quarto distrito de Nova Iguaçu
Bairro: Vilar Novo – Padaria do Portuga Joaquim.
Quinta relação
Ubiratã chega na padaria do sogro e encontra Carlos, o cunhado, em meio a uma multidão com faixas e camisas escritas: “Sou roxo sim”.
1988 – Belford Roxo – Quarto distrito de Nova Iguaçu
Bairro: Solidão – Cemitério Municipal.
Sexta relação
Com tristeza, familiares e amigos se despedem do Portuga Joaquim.
1990 – Belford Roxo – Praça Eliaquim Araújo
O povo belforroxense toma a praça de seu município e comemora a sua emancipação. Última relação.





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