colégio iguaçuano

Subvertendo a ordem

O Colégio Iguaçuano era o símbolo da austeridade da sociedade iguaçuana em pleno período ditatorial. O prédio, em formato quartelar, apresentava um pátio aberto no centro, cercado pelas salas do primeiro e segundo andar que o circulavam, permitindo que a ordem fosse vigiada de qualquer ângulo. Logo na entrada, no andar inferior, a secretaria e a diretoria funcionavam como sentinelas, garantindo que nenhum desvio de conduta passasse despercebido pelos portões da rua Bernardino de Melo.

Helena era uma veterana moldada por aquele rigor, mas tudo mudou com a chegada ao segundo grau e a entrada de novos alunos, inaugurando a primeira turma mista do colégio, no final da década de 70. Nas manhãs de formação das filas na quadra, os olhos de Helena subvertiam a ordem; ela não olhava para o mastro, tampouco para a nuca da colega da frente, mas buscava maneiras para encontrar Diana, a novata da turma mista que inexplicavelmente despertava nela um enorme interesse. O suor de suas mãos agora tinha nome.

O sentimento amadureceu no silêncio, mas logo transbordou para uma excitação que tornava os dias eletrizantes. Quando a campainha tocava, anunciando o intervalo do recreio, começava um jogo de estratégia: um toque de ombros no corredor estreito, o compartilhamento de um livro na biblioteca onde os dedos se roçavam por segundos infinitos, ou o riso abafado diante de alguma rigidez imposta. Cada encontro fortuito na lanchonete era uma descarga de adrenalina que fazia o uniforme de tergal parecer pequeno demais para o que sentiam. Foram semanas de uma alegria clandestina, onde o perigo de serem descobertas só alimentava a urgência daquele querer.

A confiança nasceu dessa repetição, até que o magnetismo se tornou insuportável na aula de laboratório de química, onde as turmas se misturavam. Sem palavras, um aceno indicou o caminho. Helena pediu para sair, sentindo o peso do olhar do inspetor nas costas. Entrou no banheiro feminino, aquele santuário de azulejos brancos e cheiro de creolina. Segundos depois, a porta rangeu. Era Diana.

O trinco da cabine de madeira foi o som da liberdade. Ali, naquele espaço exíguo, o mundo exterior deixou de existir. O beijo foi uma colisão de tudo o que haviam represado. Tinha o gosto da coragem e uma ternura que desafiava a frieza das paredes. Ali, escondidas pela cumplicidade do silêncio, não eram alunas; eram duas jovens descobrindo que o amor não precisava de permissão.

Na saída, ao cruzarem o portão da Bernardino de Melo, carregavam consigo um sentimento de liberdade, um gosto indescritível de conquista. Mas o tempo, tão inflexível quanto o regimento do colégio, impôs suas rotas. Aquele amor foi uma fogueira de uma estação só. Helena, em algum momento, cedeu ao roteiro esperado e buscou o conforto das normas, encontrando um namoradinho e a segurança das tradições. Nunca mais foram as mesmas e nunca revelaram aquele segredo; mas enquanto Helena guardou o beijo como uma fotografia amarelada no fundo de uma gaveta, Diana o transformou em bandeira. Ela seguiu a vida com a certeza de que aquela alegria breve e absoluta permaneceu como a única chama remanescente do Colégio Iguaçuano que nenhuma disciplina, por mais rígida que fosse, jamais conseguiu apagar.

Diana seguiu sua própria estrada, pois para ela aquele beijo não foi uma despedida, mas um batismo. Ela continuou cruzando outros portões e escolhendo, com a altivez de quem finalmente se reconhece, outros afetos com a mesma verdade que sentira na clausura daquela cabine. Aquele episódio isolado foi o primeiro passo em um caminho que ela optou por trilhar com orgulho, encontrando em outros rostos femininos a mesma verdade que nascera naquele banheiro.

Tornou-se uma voz ativa na causa feminista como uma advogada combativa; fundindo a sua luta pessoal à defesa incansável das mulheres, entendendo que a liberdade política nasce do direito de amar sem subterfúgios. Especializou-se no combate ao feminicídio, transformando a indignação em proteção jurídica e acolhimento. 

Diana descobriu cedo que, em um mundo de paredes quartelares, amar era o primeiro ato de justiça.