peixe do vanor

E lá se vão 36 anos…

O ano era 1990, uma sexta-feira, fim de mês. Quando o relógio marcou meio-dia, já estavam todos com as bolsas na mesa. Foi só pegar e dar tchau para o chefe, que estava ao telefone com o dono da empresa. Aquele setor, sem dúvida, era o mais animado para sair.
Chamaram um táxi e lá se foram para o Peixe do Vanôr. A caldeirada que eles pediram por telefone já deveria estar quase pronta. Eles tinham uma hora e meia para comer, e nada de beber; afinal, iam voltar para o trabalho. Será?!
Chegaram atrasados na sala (ainda bem que era a última sala do prédio, bem lá atrás mesmo). O chefe já estava na porta, a carranca mostrava a insatisfação, e a língua confirmou:
— Vocês foram almoçar e nem me chamaram! Beberam?Em coro, os três que entraram na frente, Renato, Vanessa e Claudia, responderam juntos:
— A gente  jura que não, senhor Joel!

Só que aí entra na sala a Joene, soluçando sem parar. Pronto, a carranca ficou vermelha e o senhor Joel dispara:
— Ahhh, beberam sim e não me chamaram! Ela tá soluçando!

Claro que eles negaram, mas era sabido que quando Joene bebia, ficava a soluçar.

Conseguiram contornar o problema, convidando o chefe para o Pinguim quando acabasse o expediente. Às 17 horas em ponto, lá foram eles. Era um prazer parar naquele boteco e, em pé, beber uns chopes depois do trabalho.
Mas eles não paravam só ali não! Tinham os bares no entorno da Praça Santos Dumont: o Galetinho, que ficava no beco da Camisaria Flor de Maio; um bar logo depois do Guanabara; e também um que tinha uns petiscos bem estranhos na opinião de Joene, que ficava na Rua Francisca de Melo, próximo ao Terminal Rodoviário de Nova Iguaçu.
Para Joene, foram seis anos e meio maravilhosos trabalhando nessa empresa, até que alçou vôo para mais longe.
E lá se vão 36 anos de uma época em que foram felizes de bar em bar…  A verdade é que, hoje, sobraram pouquíssimos desses relacionamentos, esporádicos nos contatos, mas afetuosos quando se encontram.
Entretanto, o relacionamento que mais dói ter perdido foi dos bares que frequentou e hoje não existem mais. O de perto do Guanabara virou igreja, o Pinguim virou loja de roupas e por aí vai, exceto o Peixe do Vanôr que Joene, ao passar em frente, viu a fachada modernizada, mas estava lá! Já pediu delivery de almoço, mas nunca a caldeirada. Essa ela deixou para pedir quando tiver o prazer de retornar, em carne, gordura e rugas, ao lugar que já lhe despertou muitos sorrisos e satisfação.
Esse relacionamento ela quer de volta e, dessa vez, sem precisar esconder que bebeu uns chopes.