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Saudade

O vento forte batia a porta da varanda insistentemente. O ranger da dobradiça aumentava a angústia daqueles dias cinzas. Esperava pela primavera, ela não veio. Como se o tempo tivesse caminhado para trás, como se as estações tivessem se confundido entre si…e o vento insistia em bater a porta da varanda e o ranger da dobradiça dilatava a minha angústia cinza. Eu não queria sentir aquele sentimento de angústia, nem cinza, nem azul, ou negro. Como o buraco negro que existe na estratosfera, que dizem os cientistas quando alguma coisa cai nesse buraco negro, se perde pela galáxia. Queria que aquele sentimento que fazia ranger meu peito e pesava minha cabeça, caísse naquele buraco negro e que nunca mais eu soubesse dele. Mas dizem aqueles que não são cientistas, que o buraco negro não existe, eu, porém, acredito que existam, eu, porém, preciso acreditar que existam e que em algum momento, o buraco vai sugar essa dor que me corrói como a ferrugem da dobradiça da porta da varanda que bate ao vento. Penso ainda que antes que essa angústia se torne viajante pela galáxia, preciso muitíssimo saber de onde ela veio. Lembrei de algo que talvez não seja a verdade, mas que talvez me leve a descobrir a verdade desse sentimento dilacerante. Eu sorria sentada à porta da varanda como se o verão morasse no meu quintal, os pássaros cantavam alto e sincronizadamente, e o verde da minha grama era muito verde, como sempre desejei que fosse. Eu sorria sentada à porta da varanda da casa que não era minha casa, mas onde eu morava como se fosse. A casa tinha sido de muita gente antes de mim. Meus avós habitaram a casa por muitos anos, depois seus filhos a habitaram por tantos outros anos e, finalmente, eu a habitei. Onde estavam todos? Meus avós, seus filhos, e os filhos de seus filhos? Teriam sido sugados pelo buraco negro que dizem os cientistas quando alguma coisa cai nesse buraco, se perde pela galáxia? Eles não estavam lá na varanda, sentados e sorrindo comigo. A angústia me corroeu a carne do peito e a carne que cobrem os ossos deixando a fratura exposta da dor. Aquele sentimento lancinante era a saudade dos mortos. Eles habitavam agora um buraco negro mais profundo que a galáxia. Eles não estavam mais sentados ao meu lado e sorrindo. A tristeza me sugou o sorriso e estilhaçou o verão que morava no meu quintal, e derreteu a minha grama verde, muito verde. Meus avós, seus filhos e os filhos de seus filhos estavam mortos e não moravam mais na casa que eu morava. Eu sentia uma saudade profunda de todos os mortos que um dia não estavam mortos. Que um dia sorriam comigo sentados à varanda e admiravam o verão do nosso quintal e a nossa grama muito verde. Aquela saudade me apertou a garganta e eu não conseguia respirar. A saudade era forte, e profunda, e torturante demais para eu sentir. Eu habitava aquela casa de pessoas mortas, mas eu não estava morta. Eu pensava naquela gente que um dia vivia sentada na varanda e admirava o verão e a grama, aquela gente que um dia sorria ao meu lado e era feliz antes de não existirem mais, antes de deixarem em mim um buraco negro, e denso, e dolorido, e tocável; quisera eu fosse sugada pela luz para não sentir a angústia daqueles dias cinzas de saudade dos mortos. Descobri que a saudade dos mortos é mais forte que a saudade dos vivos, porque os mortos não podem conversar e eu gosto de conversar, porque eles não dirigem e eu gosto de dirigir pelas estradas, porque eles não saem pra caminhar na orla da praia e eu gosto de molhar os pés na espuma do mar. Descobri que os mortos não tem pés e isso me causou uma tristeza profunda. Descobri que eu desejava que os meus mortos estivessem vivos porque a saudade de gente viva dói menos que a saudade dos mortos. Desejo que essa saudade torturante em breve se torne viajante pela galáxia.