O Brasil queria mudança. Chegou a época de eleição e a palavra que mais se ouvia era mudança. Mas até o fim do primeiro turno, tudo que se viu foi mais do mesmo. Mudavam os candidatos, mas as propostas eram as mesmas. Repetiam os mesmos sobrenomes, a mesma velha política, às vezes com outra roupagem. Só que o povo daquele país parecia querer votar no perfil de candidato que mais criticava. Quem era contra a bandidagem votava nos bandidos. Quem era pobre votava no rico. Quem defendia a liberdade votava no opressor. E o país se dividia em duas torcidas, deixando o resultado apertado e imprevisível.
No dia da votação, assim que as seções eleitorais abriram, que uma ventania tomou a cidade. Os santinhos de candidatos que cobriam o chão das ruas começaram a voar aos montes. Invadiram os colégios, as igrejas, os corredores. Onde havia votação, havia santinhos entrando pelas portas e janelas. Os papéis grudaram nos rostos dos eleitores, cegando alguns na hora de votar. Um homem tentou arrancar o santinho que cobria seus olhos, mas um pequeno quadrado de papel ficou preso debaixo do nariz, formando um bigodinho. Ele esfregou o rosto, puxou o papel, tentou de novo. O bigodinho continuou lá. Na mesma seção, outro eleitor tentava se livrar dos santinhos grudados na mão direita. Sacudia o braço pra frente e para o alto, com a palma virada para baixo, mas os papéis insistiam em grudar. O homem abaixava e levantava o braço, mas o papel grudado insistia em não sair. As pessoas em volta ficaram horrorizadas. Perto dali, um rapaz quase engoliu um santinho. Ao tentar cuspi-lo, começou a tossir e a berrar sons incompreensíveis. Ele apontava para as pessoas, cerrava os punhos e agitava os braços, como se estivesse diante de uma multidão que precisasse ser convencida a odiar alguém. Quem passava diminuía o passo para ouvi-lo. Há quem diga que falava em alemão, mas ninguém soube traduzir.
Do lado de fora, os santinhos se amontoaram numa montanha que atravessava ruas, praças e avenidas. O vento empilhava os papéis até formar um muro que dividia a cidade em duas metades. De um lado, as pessoas tentavam chegar às seções; do outro, viam de longe seus vizinhos do lado oposto. Muitos voltaram pra casa conformados em não conseguir votar. Quem votou teve dificuldade para digitar os números. Os santinhos grudavam nos dedos, atrapalhando a digitação. Um homem tentou digitar o número de seu candidato, mas o indicador escorregou para outro botão. Corrigiu e tentou novamente. O dedo voltou a escapar. Quando finalmente confirmou o voto, não tinha certeza em quem havia votado. O relógio de ponteiro da seção eleitoral parecia andar pra trás com a força do vento.
Ao fim da votação, a contagem apontou um segundo turno, com ligeira vantagem do candidato que estava atrás nas pesquisas. Para o outro lado, foi um banho de água fria. O resultado foi diferente do que eles esperavam. Nas semanas seguintes, a militância se recompôs e foi para as ruas. Não houve vento capaz de segurar aquela onda contra o retrocesso. Na véspera do segundo turno, todos acompanharam a previsão do tempo, com medo de que a ventania voltasse a atrapalhar a votação.
Mais uma vez, no horário de abertura das seções, o vento começou a soprar. Dessa vez, os santinhos não voaram contra os eleitores. Foram arrancados dos rostos, dos braços e das roupas. Os dedos se soltaram, as mãos voltaram a obedecer e as pessoas conseguiram enxergar a tela da urna sem precisar afastar papéis dos olhos. O relógio que andava para trás, parecia acelerar pra frente. O eleitor que reclamou ter digitado errado no primeiro turno voltou à urna. Dessa vez seus dedos não escorregaram. Digitou um número, depois o outro. Conferiu a tela e apertou “confirma”. Lá fora, o céu se abriu. As flores dos jardins se espalharam pelas calçadas, enquanto o vento empurrava para longe os últimos santinhos. Até quem não votava, por conta da idade, saiu de casa. E os que tentavam fazer boca de urna levaram uma rasteira da ventania. Ao fim da apuração, os bons ventos trouxeram de volta a esperança. O velho continuava por ali, com seus sobrenomes e suas promessas. Mas, dessa vez, alguma coisa tinha mudado.





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