mãe filha ônibus

Sangue derramado

Aquela manhã estava nublada como o coração daquelas mulheres. Acordaram cedo, pegaram o ônibus. A decisão já tinha sido tomada. Não era fácil pra aquela mãe, nem pra jovem menina. Seria um crime? Um delito contra a vida? Elas não viam outra saída. A mãe queria salvar o futuro da filha; à filha restava-lhe obedecer.

Para a jovem, seu primeiro contato com sangue havia sido há menos de um ano, aquele que sai involuntariamente todo mês das entranhas de uma mulher.

Ela não tinha muita escolha: se corresse o bicho ia pegar, se ficasse só Deus sabe o que poderia acontecer. Mas ninguém podia saber. Seria um segredo entre mãe e filha.

Chegaram, enfim, subiram uma escadaria estreita. No corredor, outras mulheres com semblantes de horror, algumas acompanhadas, outras sozinhas com seus medos. Todas estavam prestes a se encontrarem com um homem de jaleco branco. Ela podia sentir no ar hostil o cheiro da morte.

Na sua vez, caminhou resignada para o sacrifício na esperança que dali pra frente tudo seria diferente e com uma certeza de que nunca mais estaria naquele lugar, se matasse ou se morresse. A mãe ficou à espreita. Mas o tempo não passava. Alguns outros acompanhantes foram embora para, talvez, voltar depois, mas a mãe, não.

Algumas horas passadas, saíram de lá, caladas de volta para a casa. A mãe sentia culpa, a jovem, dor. Ao saltar do ônibus próximo de casa, a menina parou, pois sentiu uma cascata de sangue escorrer pelas pernas por baixo de sua calça jeans. Apertaram o passo do jeito que puderam, entraram.

De madrugada, o pai estranhou o movimento da casa, levantou-se e foi até o quarto da filha.

Espantado com a cena, com os lenções molhados de sangue, perguntou:
O que aconteceu? Quem fez isso com a nossa filha?
Eu só queria protegê-la daquele monstro!

Correram então para o hospital mais próximo. Há uma linha tênue entre a vida e a morte que pode se partir a qualquer momento. E a menina, que via sua vida escorrendo naquele líquido vermelho, só queria uma nova chance e no seu subconsciente torcia para que a linha não se arrebentasse.

No dia seguinte, a menina, ao voltar à vida, olhou para o lado e viu a luz que entrava pela janela, ouviu pássaros que cantavam lá fora e a bolsa de sangue que salvava sua vida. 

Não choraria o sangue derramado. Seguiria em frente com mais autocuidado.