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Relacionamento eletrônico

Desde menino, Vadinho era vidrado em jogos eletrônicos. Passava horas e horas no fliperama da pracinha de Morro Agudo, esquecia até do horário de aula no Colégio Boa Esperança, da Dona Clementina, envolto nas luzes piscantes, botões multicoloridos e sons eletrônicos. Seu vício era tamanho que os amigos logo lhe deram um apelido: Tiltzinho, referência direta ao “tilt” que surgia quando o jogo travava, mas também ao seu jeito obstinado de nunca desistir de uma partida.

Nada parecia capaz de afastá-lo das máquinas; era um relacionamento de paixão e raiva. Os amigos tentavam de tudo: convites para jogar futebol no campinho, ir aos bailes do Vasquinho e até encontros com Aninha, uma garota da vizinhança que era perdidamente apaixonada por ele. Mas Tiltzinho era irredutível. Preferia o joystick ao abraço, o placar ao papo, o próximo crédito ao primeiro beijo.

A relação que ele criara com uma das máquinas era especial. Quando chegava para jogar e havia outro adolescente nela, ele ficava com ciúmes e esperava impacientemente até ela ficar livre. E, sempre que jogava, conversava com ela com tanta naturalidade que parecia até humana. Quando perdia uma partida, reclamava de forma chorosa, sentindo-se traído:
— Você não gosta de mim, né?

Quando vencia, era só festa: pedia perdão, fazia juras de amor eterno e prometia que jamais a trocaria por nenhuma outra máquina.

Os amigos não desistiam de afastá-lo daquela obsessão. Sempre inventavam alguma estratégia, mas todas as tentativas eram inúteis. Com o tempo, passaram a acreditar que aquele relacionamento desapareceria quando ele chegasse à idade adulta.

Em parte, estavam certos. O tempo passou e o fliperama ficou no passado. Mas surgiu uma nova paixão — mais sedutora e muito mais perigosa: as maquininhas de jogos de azar escondidas no fundo dos bares.

Se antes, na adolescência, o fliperama era apenas um jogo inofensivo, um problema da idade, agora o relacionamento com aquelas máquinas eram tóxicos. Trabalhando como apontador em uma banca de jogo do bicho, Tiltzinho passou a arriscar nas máquinas todo o dinheiro das apostas que recebia. Confiava sempre na sorte, mas ela nunca vinha. As perdas se acumulavam e o rombo na banca crescia. Sem dinheiro para cobrir a dívida com o bicheiro, dono do negócio, Tiltzinho percebeu tarde demais que aquele relacionamento com as máquinas havia destruído tudo. Restou-lhe apenas enfrentar as consequências das apostas e das dívidas que jamais deveriam ter sido contraídas com o patrão do bicho.