reizinho

O reizinho que comia as coroas

A velha Rainha era a soberana de um longínquo reinado da Baixada Fluminense chamado Maxambomba. Posteriormente, muito no futuro, esse lugar veio a ser denominado Nova Iguaçu. A Rainha possuía uma fábrica de ilusão e produzia nela tudo o que seu filho único imaginava. Seu filho, o futuro Príncipe herdeiro, adorava chocolates e, por conta disso, a Rainha fabricava bolas, carros, aviões, bichos… Tudo com sabor doce e imaginário daquela guloseima, oriunda do cacau, plantado nas matas de Marapicu, Santa Rita, Japeri e Queimados, juntamente com os pés de laranja.

O Rei era um senhor gordo quase centenário, tinha uma visão parca e uma audição bastante reduzida, sempre caía na gargalhada com as ideias criativas e exóticas do Príncipe, que fingia comer uma barata de chocolate para agradar a sua esclerosada mãe. Essa vivia sempre perguntando pelos cantos do castelo, quando o filho não estava por perto:
— Cadê meu Reizinho?

Ainda restavam muitos súditos daquele antigo reinado. Todos bastante idosos, a ponto de não serem mais necessárias as amputações nos Eunucos. Alguns dos Eunucos, mais antigos, que na juventude haviam sido amputados por ordem do Rei, já tinham até ‘batido as botas’. Mulheres Vassalas, que haviam resistido ao tempo, cuidavam hoje da cozinha, da arrumação e do banho semanal da Rainha e do Rei que outrora banhava-se com as concubinas que antigamente eram esbeltas e sempre serviam ao seu senhor todo frescor de suas juventudes, só que atualmente o Rei mal conseguia movimentar-se.

O Castelo tinha um forte cheiro de mofo. Esse era um dos motivos pelo qual o Príncipe, que estava no resplandecer de sua adolescência, realizava constantes excursões fora daqueles muros. Normalmente, durante o dia seguia em sua carruagem rumo ao campo, atrás das borboletas. À noite, quando não estava visitando os bordéis em Cabuçu, ele pegava seu giz de cera e saia escrevendo frases e poemas nas árvores e nas portas das lojas dos pequenos mercadores que começavam a surgir naquele pequeno e rústico Vilarejo, chamado Vila de Iguassú, onde mais tarde também daria origem a futura Cidade.

Certo dia, durante o período em que estava no Castelo, pediu para sua mãe produzir, em sua fábrica de ilusão, um sonho seu antigo: além das bolas cavalinhos, nuvens de algodão, que ela produzisse coroas feitas de chocolates, porque ele iria comê-las uma por uma.

O Rei, por ser bastante moco e com ciúmes de suas concubinas, mesmo hoje todas já anciãs, além de poderoso e terrivelmente religioso, ao ouvir o final do pedido proferido pelo Príncipe, dessa vez fechou o semblante, achando aquele pedido uma grande safadeza e bradou:
— Esse menino está ficando muito abusado! Nada de comer as coroas!

Logo depois que citou essas duas frases, o soberano teve um infarto e morreu.

Ao subir ao trono, o Reizinho assumiu de vez o reinado e acabou concretizando o seu antigo desejo: Comeu todas as coroas, inclusive as de chocolate.