O primeiro trovão fez Maria correr para fechar as janelas. O céu escurecera de repente e a força de um vendaval fora do normal, arrastava folhas, sacolas e tudo o que encontrava pela rua. Quando terminava de vedar a casa, ouviu pancadas na porta. Era Ana.
Por alguns segundos, nenhuma das duas disse nada. Havia anos que não ficavam tão próximas.
— A mangueira acabou de cair sobre a minha casa e não consigo entrar.
Maria olhou por cima do ombro dela. A tempestade de vento empurrava tudo, até que outro relâmpago clareou o rosto das duas. Com um gesto, convidou Ana a entrar.
Ana entrou trazendo água nos cabelos e um passado que nenhuma delas parecia disposta a mencionar. Tinham crescido juntas, dividido brincadeiras, segredos e até vestidos. Depois vieram os maridos, os filhos, as escolhas e, por fim, a fé. Maria continuara com as missas e os santos de sua mãe. Ana encontrara na Umbanda o seu caminho e em Iansã a sua devoção. Durante algum tempo, isso não importou. Até o dia em que importou.
Outro trovão sacudiu os vidros. Maria aproximou-se da imagem de sua devoção sobre o aparador.
— Santa Bárbara, proteja esta casa.
Atrás dela, quase num sussurro, Ana respondeu ao mesmo céu:
— Eparrei, Oyá.
Maria se virou e falou:
— Ainda acredita nessas coisas?
Ana sustentou o olhar. Conhecia aquela frase. Não exatamente aquelas palavras, mas o mesmo tom.
— Acredito. Do mesmo jeito que você acredita na sua santa.
Um estrondo interrompeu a resposta de Maria. A luz se apagou e, por alguns segundos, restaram apenas o barulho da chuva e os clarões que entravam pelas frestas.
— Foi por isso que nos afastamos, não foi? — perguntou Maria.
— Não. Foi porque você chamou minha fé de coisa do demônio.
Maria baixou os olhos. Lembrava-se. Durante anos preferira acreditar que Ana exagerara, que uma amizade tão antiga não poderia acabar por causa de uma frase.
— Eu não entendia.
— E hoje entende?
Maria demorou a responder. Um novo relâmpago iluminou a sala. Sobre o aparador, Santa Bárbara pareceu surgir por um instante no meio da escuridão.
— Não sei se entendo — disse Maria. — Mas sei que não precisava ter machucado você.
Ana permaneceu em silêncio. Enquanto lá fora, o vento continuava derrubando galhos, arrancando telhas, sacudindo portões. Dentro daquela casa, alguma coisa também começava a ceder.
Um clarão invadiu a sala e, quase ao mesmo tempo, um estrondo fez a casa inteira estremecer. O raio caíra tão perto que as duas se abraçaram por instinto. Ficaram assim por alguns segundos. Quando perceberam, afastaram-se devagar, quase constrangidas. Maria olhou para a imagem de Santa Bárbara. Ana respirou fundo.
— Eparrei, Oyá.
Maria tornou a olhar para ela. Dessa vez, não havia reprovação.
— Minha mãe dizia que tem gente que só se lembra de Santa Bárbara quando ronca trovoada.
Ana sorriu.
— Às vezes, o trovão faz a gente se lembrar de muita coisa.
Lá fora, o vendaval começava a passar. Dentro da casa, também.





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