João sempre foi uma criança levada, aprontava pela vizinhança inteira, um verdadeiro “pestinha”, como se costuma dizer. Trepava nos muros para ver o que tinha dentro dos quintais, puxava o rabo dos cachorros e dos gatos de rua, encrencava com os colegas na hora das brincadeiras, era um verdadeiro terror.
Mas, o que mais deixava todo mundo de cabelo em pé era a mania que ele tinha de pegar os doces do mercadinho do Seu Zé Laurindo, que ficava na esquina da rua da sua casa. O seu Zé já estava começando a ficar com a visão um tanto prejudicada. Então, o menino vinha assim, bem sorrateiro, se esgueirando pela parede do estabelecimento, prestando atenção em quando o senhorzinho ia ficar desatento. Era só o homem se descuidar que ele, vupt, puxava os doces de leite que ficavam na banquinha do lado de fora do mercado. Quando o homem se dava conta, lá ia o João correndo com algumas barras de doce de leite gritando pela rua:
— Enganei o bobo na casca do ovo! – E gargalhava com os doces na mão.
Seu Zé Laurindo gritava para ele assim:
— Ah, um dia eu te pego seu moleque chave-de-cadeia abusado! – mas nunca conseguia agarrar o menino.
Um dia, João voltando da escola, viu o mercadinho fechado. Embatucou:
— Ué, seu Zé Laurindo nunca fecha esse mercado, nem para almoçar… o que será que aconteceu?
Correu para casa. Quando chegou, a mãe falou:
— Meu filho, tome um banho e vista a roupa preta que deixei em cima da cama.
— Ué, por que, mãe?
— Vamos ao velório do seu Zé Laurindo. Ele faleceu de repente, hoje cedo, um pouco antes de abrir o mercadinho.
João ficou parado, olhando a mãe sem acreditar. Ela falou:
— Vai, meu filho, porque daqui a pouco é o enterro.
O menino foi indo, andando para o banheiro bem devagar, tomou o banho sem prestar atenção no que fazia, um nó na garganta… vestiu a roupa e saiu com a mãe para a capela da igreja.
Quando chegou lá, um rapaz que lembrava seu Zé Laurindo olhou para João e perguntou:
— Você é o João Chave de Cadeia?
O menino deu uma risadinha e começou a lagrimar, lembrando que nunca mais ia ouvir o seu Zé Laurindo gritar esse nome para ele. O rapaz pegou um saquinho com barrinhas de doce de leite e deu para o menino dizendo:
— Meu pai sempre soube que você gostava de implicar com ele pegando os doces então, hoje cedo, acho que já sabendo que não ia conseguir abrir o mercadinho, me pediu para te entregar esse saquinho de doces quando eu fosse ao trabalho.
Foi a primeira vez que João Chave de Cadeia não se divertiu ao ter barras de doce de leite em suas mãos.





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