O ‘Anjo Gordo’ não tinha um nome definido. Não era Miguel, Gabriel, Rafael, Ezequiel… Todos os outros anjos faziam bullying com ele e o chamavam debochadamente de o ‘Anjo Gordo’.
Ele não era um querubim, até porque não sabia tocar harpa, cítara ou qualquer outro instrumento. Não era um serafim, porque nunca conseguia ver Deus durante o seu percurso de voo. Não era considerado arcanjo, pois sempre se escondia atrás das nuvens quando a plêiade celeste se reunia para tomar qualquer decisão. Era apenas um anjo, que nos áureos tempos fora designado para ajudar os seres humanos em seus desenvolvimentos espirituais.
No entanto, era um anjo que já vivia há mais de seiscentos anos. Estava designado, como um ser espiritual, à imortalidade. Porém já estava cansado de suas infindáveis tarefas. Suas asas já não tinham todas as penas de outrora, de quando ele voava com facilidade e leveza, por vezes, tirando até alguma soneca em qualquer nuvem distraída.
Hoje, sua pança não permitia mais essas peripécias. Os seres humanos, os quais ele tentava encaminhar, não acreditavam mais em seus sussurros de pé de ouvido e nem ouviam seus conselhos ultrapassados, falando de altruísmo ou de amor ao próximo. O céu estava muito espaçoso para ele. Anjos mais jovens cumpriam suas missões agora via internet e inteligência artificial, coisas que ele sequer tinha algum domínio.
Por conta de sua avançada idade, Deus o nomeou ‘Carcereiro das Almas Rebeldes e Perniciosas’ na cadeia do purgatório, por ser um trabalho mais leve. Lá estavam trancafiados, entre outras tantas, a alma de Satanás, que em tempos remotos também havia sido um anjo rebelado.
Só que, devido ao seu cansaço, o ‘Anjo Gordo’ costumava dormir em cima de um saco de nuvens, abraçado ao gatinho que São Francisco de Assis havia lhe presenteado.
Certa feita Satanás, que era dotado de muita esperteza e malandragem, numa distração do ‘Anjo Gordo’, lhe afanou as chaves das celas e, além de abrir a sua, soltou também todas as outras almas ruins.
Deus ficou tão irado com o ‘Anjo Gordo’ que o transformou em elefante, um animal provido de uma super memória, para que ele nunca mais esquecesse sua displicência, além de ficar tão pesado que não sairia mais do chão.
Quando foi tentar recuperar as almas que fugiram Deus já não obteve sucesso, porque a maioria delas já havia sido eleita para o Congresso Brasileiro por terem inventado, usando o seu nome, o slogan ‘Deus, Pátria e família”. O inferno passara a ganhar novos membros.





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