adolescente maquiada

Garota padrão

Clarice nasceu encantadora. Logo nos primeiros meses de vida, descobriu que tinha um sorriso de ganhar o mundo. Não era aquela criança de capa de revista, nem precisava sê-lo. Sua beleza transbordante vinha de outro lugar. Era uma menina fascinante, daquelas que todos gostam de ter por perto.

Na adolescência, mesmo as meninas mais populares da escola sentiam uma inveja secreta de Clarice. A garota irradiava algo que simplesmente lhes faltava e, se não pode vencer um inimigo, junte-se a ele. Isabela foi a primeira a se aproximar, acolheu Clarice no almejado grupo e aos poucos incutiu-lhe caraminholas na cabeça. Isso em uma época em que as pessoas ainda usavam a expressão “caraminholas”. 

Isa, como era chamada, e as demais do grupinho de notoriedades, começaram a convencer Clarice que sua presença era, e seria sempre, muito agradável. Mas, enquanto boas amigas, precisavam adverti-la de que sua estética não era boa o suficiente. Enquanto nova integrante da turma, ela deveria domar os cachos, alourar as longas madeixas castanhas, trocar os óculos por lentes de contato e caprichar nos produtos cosméticos para modelar seus traços. Enfim, precisaria de uma remodelagem geral. Também deveria sorrir menos, afinal de contas, correria o imenso risco de estragar a maquiagem: tragédia total.

Muito bem aconselhada pelas excelentes amigas, Clarice foi se adequando, perdendo um pouco exatamente daquilo que a diferenciava. Aos poucos, domesticou até suas preferências pessoais: os livros clássicos foram trocados pelos best-sellers da moda. A boa música brasileira, que cresceu ouvindo com seus pais, deu lugar às bandas estrangeiras que lhe pareciam todas iguais. Os passeios no jardim cederam lugar às baladas. Enfim, tornou-se uma menina padrão. 

A idade adulta chegou e as exigências externas foram cada vez maiores. Anos dois mil, um botox. Dois mil e dez, uma lipo e seios novos. Dois mil e vinte, harmonização facial. No total, treze intervenções cirúrgicas ao longo de cinco décadas. 

Com o passar do tempo Clarice, em vão, passou a procurar no reflexo a espontaneidade de infância. Não reconhecia o próprio rosto, a sensação de desperdício de tempo só não era maior que o luto da alegria perdida. 

Aos setenta e nove anos, num agradável entardecer de outono, enquanto o vento suave invadia a janela do quarto, tremulando carinhosamente as cortinas, a quase octogenária, artificialmente toda esticada, decidiu se olhar uma vez mais no espelho. Dessa vez, não encontrou a imagem de todas as manhãs. Quase não reconheceu aquela senhora, cheia de rugas, dona de um sorriso capaz de iluminar a alma. 

A idosa atravessou o anteparo e pegou Clarice pelas mãos. Nesse momento, como por mágica, as frágeis mãos daquela mulher ganharam nova textura, uma pele de criança. A garotinha, que agora tocava docemente os braços de Clarice, gargalhou, fazendo aquele barulho gostoso de quem é a verdadeira dona da felicidade. Em seguida, entrelaçaram-se num abraço muito apertado, enquanto todo o peso de seus corpos se esvaía.  

Na manhã seguinte, José, o filho mais novo de Clarice, encontrou sua mãe caída ao chão, inerte, diante do espelho, com o sorriso mais bonito do mundo. Observou no rosto da mãe um encanto especial, de um modo que ele jamais contemplara antes, em quarenta e oito anos de convívio.