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mother and child daughter reading book in bed before going to sleep

Eterno pesadelo

Desde pequeno sempre fui o xodó das tias. Elas gostavam de dizer que eu era o mais gentil, o mais educado, o mais inteligente. Enquanto recebia os elogios, eu estampava o rosto singelo de um anjo humilde. Por dentro, eu ria dos trejeitos de reprovação dos meus irmãos enciumados.

Eu seria perfeito se não fosse a relutância para dormir. Meus pais sempre se esmeraram em me dar atenção, sobretudo nesse momento. Eram historinhas, rezas, chá. Para que eles fossem embora, eu fingia que tinha adormecido. Entretanto, no silêncio e na escuridão de meus olhos fechados, eu continuava lutando contra o sono, para que eles não viessem.

Os sonhos sempre me incomodaram. Os primeiros dos quais me lembro eram apenas poças de sangue. Mais tarde, vieram os sonhos com bichos. Aves, coelhos, cachorros, gatos. Em um momento, estavam ali, belos, fofinhos e no outro se estendiam a minha frente, sem vida. Como é próprio dos sonhos, eram aquelas imagens entrecortadas, com sequências meio sem nexo, eu não lembro exatamente como acontecia. Só me recordo de ter a certeza de que, na cena, não era nada natural. Era como se os lindos animais tivessem sido assassinados. Quando eu acordava apavorado, somente me perguntava quem, na vida real, seria capaz de tamanha crueldade. Em seguida, eu ficava feliz porque tudo não tinha passado de um sonho muito ruim.

Conforme avançava minha adolescência, os animais tomaram forma de gente. Crianças e idosos, homens e mulheres, pessoas crentes e ateus, o assassino que povoava meu repouso noturno não fazia distinção. Esses sonhos com pessoas mortas já duram dez anos. Até hoje eu nunca tinha contado para ninguém.

Nesta noite, depois de tentar dormir por horas, aconteceu de novo. A vítima da vez era um homem branco, de quarenta e cinco anos, incapaz de perceber o que lhe aguardava em minha madrugada onírica. Foram dez facadas pelas costas. Então o despertador tocou. Bom, na verdade não era o despertador, era a sirene da polícia. E era eu com a faca ensanguentada na mão, sendo algemado e depois trazido aqui.

Após prestar essas declarações ao delegado, fui conduzido pelos corredores para esta cela úmida, sombria e abarrotada de gente. Logo mais, chegará novamente a hora de dormir e duas dúvidas me assaltam a mente. Qual desses homens desafortunados será o próximo a participar dos meus sonhos? Será que algum dia eu irei despertar do meu eterno pesadelo?