Era para ser um final de semana divertido, com a reunião de famílias e parentes, reunião de amigos que não se viam há tempos, reencontros depois de um ano afastados, algumas pessoas praticando meditação, namorados passeando de forma despretensiosa, enfim, pessoas curtindo um final de semana.
Acontece que o parque fica na área central da cidade e, por ser um local público, havia presença de agentes de segurança pública nas adjacências do parque, mas nenhuma ocorrência há vinte anos.
Eusébio saiu de casa depois de encher a cara a tarde toda. Perdeu o emprego por má conduta, mandou o chefe para a PQP com todas as letras e não queria saber de mais nada. Parecia que ele perdeu a vontade de viver, a mãe dele reclamava o tempo todo. Depois do falecimento do esposo, o único filho parecia ter ficado perturbado da cabeça, não estava mais interessado em nada. Nem as telas de pintura ele fazia mais. Não mantinha relacionamento com mais ninguém, enfim, deixou a sombra tomar conta dele.
Depois de chegar em casa, jogou os papeis que pegou no RH, garantiria a ele alguns meses de seguro desemprego, daria tempo de ele conseguir outra fonte de renda ou poderia usar o valor do seguro para aplicar em um negócio próprio, revenda água na praia ou abrir uma pequena loja para vender produtos de cozinha. Eusébio era bom cozinheiro, fazia hobby, mas era muito bom. Largou tudo de lado e resolveu se matar, mas antes queria atenção.
Saiu de casa com os pés de sapatos trocados. Vestiu a camisa de qualquer jeito e carregava uma Taurus PT940. Saiu de casa com a ação premeditada. Nada do que poderia acontecer naquele meio tempo iria mudar a intenção dele.
Uma semana antes, Marina, mulher que mantinha relacionamento com Eusébio há quase sete anos, propôs o término do relacionamento alegando não sentir mais nada por ele. Plankton, seu fiel companheiro de quatro patas faleceu prematuramente, o que se sabe é que o portão estava aberto e o cachorro saiu correndo atrás de uma moto que passava em alta velocidade, outro carro na contramão não viu o bichano, tentou desviar, mas o cachorro correu em direção oposta, não deu tempo. O carro passou em cima do Plankton.
A mãe de Eusébio recebeu o diagnóstico que esperava depois de um exame de rotina. Ela estava com um câncer irreversível, fumou a vida inteira e não tinha mais cura para ela. Eusébio não queria mais saber, saiu de casa em direção ao parque. Tomou todo seu estoque de bebidas que tinha em sua adega, dois litros de vinho Biondi-Santi Tenuta e San Guido, era para comemorar seu noivado. Abriu o armário do banheiro e tomou os analgésicos que estavam lá dentro, foram três comprimidos e dois litros de vinho. Sua percepção já estava alterada. Pegou as chaves do carro, deixou a mãe, dona Firmina, gritando aos deuses para ele não sair de casa, para se acalmar, que toda essa situação iria passar. Eusébio fez o que nenhum filho deveria fazer, empurrou a mãe contra a parede, deixou a progenitora em lágrimas, caída no chão e saiu.
Ele nem abriu a porta da garagem direito, saiu às pressas em direção ao parque, era o local perfeito para pôr em prática seu plano de ódio. A vida dele tinha acabado e ele queria descarregar suas frustrações. Saiu em alta velocidade, com lágrimas nos olhos, os vidros semiabertos. O coração pulsando com a velocidade acima do que consideramos normal.
Invadiu os portões do parque, dois porteiros estavam ali, se não tivessem pulados para o lado teriam sido atropelados. Eusébio acelerou um pouco mais e sacou a arma para fora da janela, disparou os doze tiros, dos quais acertou uma mulher que estava sentada com o namorado no banco que ficava às margens do lago central do parque, um cachorro que estava voltando com um disco na boca em direção ao seu dono, que também recebeu uma bala na perna direita, uma senhora que estava em direção a saída do parque, três balas se perderam porque Eusébio não estava usando mira, apenas atirou a esmo.
Acelerou o máximo que pode, chorando cada vez mais alto, o sangue começou a jorrar em suas narinas, manchou todo rosto, ainda havia uma bala no cartucho, ele gritou um sonoro VIDA DESGRAÇADAAAAA, atirou na própria testa, o carro continuou andando e afundou no lago central da cidade.
O caso ficou mundialmente conhecido como o MANÍACO DO CARRO.
DESGOVERNADO, além das vítimas no parque, das quatro balas perdidas uma acertou sua ex-namorada, ela estava indo em direção a casa de Eusébio, depois de refletir muito Mariana tinha resolvido pedir o retorno do namoro, foram sete anos de relacionamento. Infelizmente não deu tempo. Sangue inocente, inclusive, já havia sido derramado.





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