piso sangue mármore

Cor escarlate

Maria olhava para o céu como quem buscava respostas. Queria um  sinal, uma voz, qualquer coisa que a arrancasse daquela dor profunda de existir — um sofrimento que parecia deleitar-se em vê-la padecer.
— Você fede, é podre e ignorante. Tem que viver à margem da sociedade.

Essas palavras ecoavam em seus ouvidos, repetindo-se em sua alma. 

À beira da piscina, com o uniforme azul — ou, quem sabe, sua segunda pele — que lhe remetia à repulsa, ao cativeiro e à insignificância social, ela se ajoelhou e começou a recolher os cacos da taça que havia deixado cair. 

A cada pedaço de vidro que apanhava, Maria sentia o coração doer; diferente da taça, ela sabia que não conseguiria juntar os próprios pedaços.
— Essa taça de cristal o seu salário não paga, sua inútil! Sem perceber, a jovem não notara que sua mão sangrava, como se fossem lágrimas silenciosas escorressem de seu corpo ferido sobre o piso de mármore levigado.

Ela se levantou, deixando alguns fragmentos caírem novamente no chão. Não fez menção de estancar o sangue. A madame avançou sobre ela como uma fera enfurecida.
— Você enlouqueceu? — gritava, apontando para a poça vermelha sobre o piso — Eu não estou acreditando! Você vai… — Não terminou a frase. 

Maria ergueu a mão ferida e a aproximou do rosto da mulher. Então, olhando fixamente em seus olhos, explodiu:
— Que cor tem este sangue? Que cheiro tem este sangue? Ele é diferente do seu? Que cor tem o seu sangue, madame? — perguntou, enquanto uma única lágrima escorria por seu rosto. 

Ela respirou fundo e continuou:
— O meu sangue é luta, sofrimento e esperança. Representa o meu  povo, o suor que ergueu nações. Ele está marcado em toda parte, inclusive no piso da sua casa.

E, encarando-a sem baixar os olhos, concluiu:
— Nunca se esqueça: o nosso sangue pode ter a mesma cor escarlate… mas foi o meu que escreveu a História.