prisão cela

Carta aberta

Olhem, escrevo para pedir perdão, somente. Não sei se serão capazes de desculpar minhas atitudes intempestivas, mas preciso ao menos tentar. Sei que o papel tem mais paciência que as pessoas, por isso, caso não sejam capazes de me compreender, ao menos ele receberá este meu sincero desabafo.

Nem vocês, que são minha família, sabiam (e talvez nem eu saiba ainda) exatamente o que motivou a minha entrada em uma festa em que ninguém esperava a minha presença e simplesmente atirar no anfitrião. Vocês dirão que “convidado não convida” e é verdade, mas um amigo que possuía um convite extra perguntou se eu não tinha interesse em acompanhá-lo e eu fui. Aos poucos fui planejando aproveitar a oportunidade que havia chegado e caído no meu colo.

Meu amigo também não sabia que eu iria armado e tão pouco do que eu tinha em mente. Na impossibilidade de ferir a todos os egoístas do mundo, eu iria ao menos começar a cobrança pelo anfitrião da festa. Um velho sem caráter e que tratava a qualquer pessoa como subalterno, ocupante da Terra enquanto ele julgava se assentar no Olimpo.

Todos me devem e de alguma forma são culpados da vida medíocre e sem nenhum sucesso em que o universo me enfiou, então, atirei mesmo. Arma antiga, guardada no meu local de trabalho entre tralhas velhas há mais de dois anos, e eu, que nem tinha antecedentes criminais, coloquei em prática o meu plano, até porque a liberdade que eu tinha não era mesmo muita coisa. 

Naquela noite, aguardei as danças e a boa comida, aproveitando como todos eles. O anfitrião sorria embaixo do encardido e sórdido bigode. O vinho me dava coragem e dancei. A arma na cintura a esperar o seu momento de protagonista. Seria uma dívida a menos que teriam comigo. Na hora final da festa, voltei à mesa na qual estava assentado e sem que percebessem, mirei o dono da festa e da angústia. Ele estava distraído, alcoolizado e feliz. Mirei bem na barriga e sem pensar muito, atirei. Todos correram e ele se abaixou. A dívida continuou em aberto, infelizmente.

A polícia chegou e, em instantes, minha estratégia de sumir no meio da multidão falhou. Fiquem tranquilos. Não há problema nas celas que me abrigam, no entanto, há muita cobrança que ainda preciso fazer. Entendam, por favor e, se não for possível entender, me leiam e considerem estas poucas linhas e a minha tentativa solitária contra altivez alheia. Se há algum culpado, no espelho não vejo nenhum. Os culpados estão todos lá fora.

Minha alma livre vos abraça.

PSJ

PS: Desejem-me sorte. O carcereiro simpatiza muito comigo e daqui de onde estou terei fácil acesso à chave da cadeia.