Marcela era uma jovem mulher que se achava muito esperta. Lia tudo que aparecesse à sua frente — até promoções de mercado, mesmo sem interesse em comprar nada. Estava sempre antenada, dava aula quando o assunto era atualidade.
Mas bastou uma olhada, um sorriso malandro, uma piscada de olho… pronto! Lá se foi a esperteza ralo abaixo.
Foi numa sexta-feira que conheceu Danilo.
Ela trabalhava em um bar. Ele chegou com a blusa aberta no peito, deixando à mostra uma corrente reluzente e uma confiança tirada de filmes de ação. Pediu uma cerveja bem gelada e olhou para Marcela com ar insinuante, cheio de intimidade.
— Bonita donzela.
Era o tipo de abordagem que ela já conhecia — e, normalmente, dispensava na hora. Mas, naquele momento, não disse nada. Apenas riu.
Danilo era divertido, cheio de histórias e causos. Dizia trabalhar com “importação de eletrônicos” e viver no “corre-corre”. Em outras ocasiões, Marcela pediria até CPF e RG… mas não perguntou nada.
Começaram a se ver frequentemente. Só que ele sumia por dias, às vezes semanas, e voltava todo alegre, com chocolates, flores e até joias. Seu papo era sempre o mesmo:
— Tava resolvendo umas paradas aí.
Até que os sinais começaram a ficar grandes demais.
Um dia, ele pediu que ela guardasse algumas coisas em seu apartamento. Enrolava, mas nunca dizia o que havia no tal pacote.
Certa noite, Marcela chegou em casa depois de um dia cansativo no bar. Sentou se no sofá e fixou o olhar nas caixas empilhadas no canto da sala. A curiosidade falou mais alto.
Pegou uma faca, rasgou o durex e, aos poucos, foi abrindo. Dentro, havia celulares novos, sem nota fiscal… um maço de cartões de crédito com nomes diferentes… e um caderno cheio de anotações estranhas.
— Eu sabia… — murmurou, sentindo o coração afundar.
Quando Danilo chegou e viu a cena, tremeu na base.
— Quer explicar isso aqui? — ela perguntou, cruzando os braços.
— Calma… é meu trabalho, benzinho.
— Você é um trambiqueiro. Safado. Golpista!
— Olha… eu ia te contar…
— Quando? Depois que a polícia batesse aqui?
O silêncio se instalou. Ela se levantou, firme:
— Some da minha casa. E leva suas falcatruas junto.
Ele pegou as caixas, ainda tentou argumentar… em vão.
Assim que saiu, ela fechou a porta. No dia seguinte, trocou a fechadura, bloqueou o número dele e fez algo que não fazia há tempos: confiou mais em si mesma do que em qualquer sorriso bonito.
E, sempre que alguém chegava com papo de “bonita donzela”, ela só pensava: Chave de cadeia? Jamais.





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