Artigo publicado em Arte, Cultura e Patrimônio da Baixada Fluminense. Pode ser acessado, junto a outros artigos, clicando aqui.
Amanda Alves
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Humanidades, Culturas e Artes da UNIGRANRIO, Capes
alvesamanda2@yahoo.com.br
Tamara Campos
Doutora em Memória Social. Professora Adjunta Doutora I do Programa de Pós-Graduação em Humanidades, Culturas e Artes da UNIGRANRIO, FAPERJ
tamara.campos@unigranrio.edu.br
RESUMO
Este trabalho investiga a percepção do ofício de escritor por um autor de contos e criador de um coletivo literário intitulado Aleatórios, que acontece em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. A justificativa reside na valorização da literatura como representação social e na necessidade de dar visibilidade às vozes marginalizadas. O objetivo principal do presente trabalho é analisar como o escritor percebe sua prática, explorando a literatura como fruição e meio de transformação social. A metodologia, aqui utilizada, emprega a análise do discurso em uma entrevista com Jonatan Magella, idealizador do coletivo Aleatórios. Os resultados apresentados revelam a importância da coletividade no processo criativo, o questionamento da hierarquia literária em relação ao conto e a centralidade da literatura na identidade do escritor, destacando seu papel na construção de conexões sociais. Conclui-se, desta forma, que o coletivo Aleatórios promove a inclusão e a
diversidade literária, dando voz às experiências marginalizadas da Baixada Fluminense, e reforça o papel da literatura como ferramenta de
transformação social.
Palavras-chave: coletivo de autores; literatura; narrativa; Baixada Fluminense.
INTRODUÇÃO
O coletivo Aleatórios representa um movimento literário que valoriza a narrativa breve e a colaboração entre escritores. Fundado em 2019 por Jonatan Magella e Thiago Kuerques, o grupo reúne-se mensalmente no Teatro Sylvio Monteiro, localizado em Nova Iguaçu. Neste espaço dedicado à narrativa reúnem-se não só escritores, mas também leitores e ouvintes. Os contos dos encontros são criados com base em temas
sugeridos de forma aleatória na reunião anterior e existem regras a serem seguidas: os textos devem ter no máximo uma página e não devem ser assinados, assim, ao serem lidos e ouvidos não se sabe quem os escreveu. Contudo, conforme afirma o site do grupo, a ideia do Aleatórios não foi criada ao acaso. A iniciativa desse projeto surgiu do desejo de estabelecer um ambiente na cidade que valorizasse a arte da narrativa em que a proposta não é apenas discutir contos, ideias, mas também compartilhar as histórias criadas. A literatura, conforme afirma Antonio Candido (1988), é um direito humano fundamental que deve ser acessível a todos. “Uma sociedade justa pressupõe o respeito dos direitos
humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável” (Candido, 1988, p.191). Rildo Cosson (2014) complementa essa ideia ao discutir o letramento literário, que para além de compreender os textos literários, compreende o desenvolvimento da interpretação crítica e a própria produção de literatura como prática social.
A análise do discurso, segundo Moita Lopes (2006) e Liana Biar (2021), como método de investigação de abordagem crítica e interdisciplinar, permite compreender as narrativas como construções sociais que expressam vivências e identidades individuais, influenciadas por elementos culturais e históricos. Este trabalho busca analisar como um autor de contos e criador de um coletivo literário percebe o ofício de ser escritor, utilizando uma entrevista com Jonatan Magella como base para a análise. Desta forma, o principal objetivo deste trabalho é analisar a percepção do escritor sobre o ofício de ser escritor na Baixada Fluminense e discutir o papel do coletivo Aleatórios na promoção da literatura e na transformação social.
MÉTODO
Este trabalho adota uma perspectiva qualitativa, empregando a análise do discurso como seu principal método de investigação. A pesquisa baseia-se em uma entrevista realizada por César Manzolillo para o Portal ArteCult¹, publicado em 28 de fevereiro de 2020, com um dos escritores e idealizadores do coletivo literário Aleatórios: Jonatan Magella. Por que ele? Exatamente por ele ser escritor e um dos
idealizadores desse coletivo literário que acontece na Baixada Fluminense.
Nessa entrevista para ArteCult foram feitas nove perguntas abertas, mas para esta pesquisa foram selecionadas aquelas que questionam as concepções do escritor acerca da prática literária e do grupo que idealizou. Desta forma, foram analisados apenas dois excertos.
A análise teve como alicerce os conceitos de letramento literário de Rildo Cosson e “Direito à Literatura” de Antônio Candido e as teorias de análise do discurso de Moita Lopes e Liana Biar.
A literatura assume seu “papel” dando voz às experiências que muitas vezes são marginalizadas e destaca os escritores que ajudam a criar uma consciência coletiva que desafia a invisibilidade imposta a essas comunidades periféricas. Desta forma, a literatura deixa de ser só um reflexo da realidade e se transforma também em um meio de transformação social ao inspirar ações em prol de um futuro mais justo e igualitário.
Como analisar essas vozes? Aqui entra a Análise de Narrativa que “consiste em uma técnica interdisciplinar de análise de discurso útil especialmente para dados de entrevista” (Mota; Biar; Ramos, 2019, p.9). Ela preocupa-se com a forma que as histórias são contadas e não apenas com o significado que transmitem, ou seja, busca compreender não só o conteúdo das narrativas, mas também a estrutura, o contexto e as intenções dos narradores. No entanto, conforme apontam Biar, Orton e Bastos (2021, p.247) “aquilo que o texto ‘conta’ não é a versão única daquilo que se estuda”, será sempre um recorte do olhar do pesquisador.
Como afirma Moita Lopes (2006, p.85) “a pesquisa é um modo de construir a vida social ao tentar entendê-la”. Assim, pesquisar vai além da mera coleta de dados é um ato de construção social. Além disso, defende que esse conhecimento seja acessível, ouvindo e incluindo as vozes de diferentes grupos, especialmente aqueles que têm sido marginalizados.
Através da análise de narrativa, pode-se entender como escritores analisam suas experiências em relação à coletividade e à individualidade na produção literária e ao seu papel nesse contexto de periferia.
Diante do exposto, as teorias aqui apresentadas são imprescindíveis para análise da entrevista feita com um dos idealizadores do coletivo literário “Aleatórios”.
¹ArtCult (Arte, Conhecimento e Transformação) é um portal de Arte e Cultura multiplataforma. A entrevista completa encontra-se em https://artecult.com/projeto-aleatorios/
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Aqui serão apresentados os excertos conforme aparecem na entrevista. Assim sendo: o portal ArteCult (AC) é o entrevistador e Jonatan Magella (JM), o entrevistado e criador do coletivo literário Aleatórios.
Excerto 1:
ArteCult: Por que decidiu criar o Aleatórios?
Jonatan Magella: Eu estava cansado de eventos onde se falava DE Literatura. Eu queria um espaço para falar A Literatura. Tipo um sarau. Mas um pouco diferente. Porque temos muitos saraus de poesia na Baixada Fluminense. Mas nós que trabalhamos a prosa sempre nos sentimos meio órfãos ali. Os organizadores costumam dizer: tem que ler um conto pequenininho, senão dispersa a atenção. Como assim?
Um bom conto escraviza a atenção de qualquer leitor honesto.
No excerto 1 os grifos “DE” e “A”, apresentados pelo próprio portal, revelam a diferença de perspectiva que existe para o entrevistado entre falar da teoria literária e dar espaço para a arte literária. Essa distinção reflete a busca por uma experiência literária em que o foco recai
sobre a obra em si, seu conteúdo, sem a preocupação formalista e teórica sobre o gênero conto.
Desta forma, o texto, a produção artística e sua fruição passam a ser o centro do debate. Além disso, questiona esse clima academicista² e elitista em que somente algumas pessoas (que são acadêmicos-intelectuais e/ou são da parte “nobre” e rica da cidade) estão aptas e autorizadas a discutir e experienciar literatura. Magella expressa também a vontade de ter um espaço em que a prosa seja valorizada, atendendo a uma demanda coletiva entre os escritores da Baixada Fluminense que se veem à margem em encontros majoritariamente poéticos e elitizados. O Aleatórios surge como uma alternativa aos eventos que comumente existem; o que enriquece sua narrativa e sugere uma crítica à cena literária atual.
Tal perspectiva coaduna com Moita Lopes (2006) que entende a linguagem como uma prática social contextualizada e pautada por demandas sociais, que contribui para o entendimento e a transformação social. O autor propõe uma “renarração ou redescrição da vida social” (Moita Lopes, 2006, p.90), o que sugere não apenas uma descrição da realidade, mas principalmente que ela não seja uma perpetuação das desigualdades ou invisibilidades já existentes nas narrativas dominantes.
Além disso, a análise de narrativa proposta por Biar, Orton e Bastos (2021) ressalta a importância de considerar o contexto social e histórico na interpretação das narrativas destacando que “a visibilidade ampliada das pautas de grupos marginalizados (…) torna-se fundamental para provocar uma reflexão conjunta a partir da reinterpretação de suas experiências” (Biar, Orton e Bastos, 2021, p. 248).
Com esta perspectiva é possível dar voz e vez aos marginalizados promovendo a inclusão e a diversidade, algo fundamental na contemporaneidade.
²Segundo o dicionário Michaelis on-line: Academicista: relativo ou pertencente ao academicismo. Doutrinas ou princípios adotados ou
ensinados pelos acadêmicos.
Excerto 2:
AC: Na sua opinião, eventos como o Aleatórios ajudam a desenvolver a carreira de alguém que deseja ser escritor?
JM: Sim. Te dou um exemplo. Uma participante, por duas edições, não levou textos e nem quis ler: ela era uma das raras ouvintes. Em sua terceira visita ao Aleatórios, sobrou um texto na mesa de autoria desconhecida, era um estilo diferente. Daí ela levantou o dedo. É meu, ela disse. E ficou feliz, porque o texto foi comentado e votado. O detalhe é que aquele foi o primeiro texto literário que ela tinha escrito na vida. O Aleatórios é uma espécie de oficina de escrita onde todos são mestres e alunos ao mesmo tempo. No caso de quem já escreve, é a chance
de testar sua produção. Toda a crítica oriunda do Aleatórios é sincera: como ninguém sabe o autor, os comentários são feitos apenas pela qualidade do conto. Portanto, sem chances de bajulações ou implicâncias. Não importa se você tem vinte livros ou nenhum: só reparamos no texto.
Nesse excerto, Magella trata o evento “Aleatórios” como um espaço de troca e aprendizado, que inclui tanto escritores experientes quanto escritores iniciantes. Há, então, uma ruptura na hierarquia academicista dos mestres e alunos, em que não se revelar a autoria permite uma análise autêntica sem levar em consideração a pessoa autora ou a experiência dando espaço para a obra, ou seja, um espaço para “falar A
literatura”. Apresenta o evento como uma dinâmica colaborativa relevante para o desenvolvimento literário da comunidade. Fica evidente que a qualidade do texto é o único critério de avaliação nesse espaço que se mostra acessível a todos e a nova participante revela o apoio ao desenvolvimento artístico de membros da comunidade.
Essa abordagem colaborativa alinha-se às ideias de Moita Lopes (2006) que defende que as diferentes vozes e experiências da sociedade devem ser incluídas e valorizadas, reconhece também a prática de linguagem que considera a linguagem como multifacetada, trazendo a inclusão e a representatividade. Essa visão se alinha com a perspectiva de Biar, Orton e Bastos (2021) sobre a importância de dar visibilidade às vozes de grupos marginalizados, criando espaços de reconhecimento e valorização de suas experiências. Desta forma, justifica-se a importância de espaços como o Aleatórios para promover a representatividade e a diversidade literária na região.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A literatura expressa vivências humanas e oportuniza analisar a sociedade. Uma análise de uma entrevista com um autor pode não só expor seus pontos de vista acerca da prática da escrita, mas também ramificações sociais e culturais contidas em suas palavras.
As teorias aqui apresentadas ressaltam que as narrativas do entrevistado são influenciadas pelo ambiente, assim como pelo propósito da entrevista. Assim, essas narrativas poderiam ser completamente distintas se essa entrevista tivesse sido conduzida anos antes ou anos depois, ou em outro tipo de veículo. As manifestações de singularidade são influenciadas pelo contexto social e histórico que agregam e reinterpretam as contribuições apresentadas, porém não anulam todas as considerações que se podem ter em sua análise pontual.
Desse modo, a literatura da Baixada Fluminense não é apenas uma expressão artística, mas também terreno fértil para discussões que reflitam sobre as interações humanas em diferentes contextos. Por fim, a análise das narrativas pode revelar as experiências da vida na periferia e dar voz aos indivíduos que estão à margem da sociedade e até mesmo da arte. Além da arte em si, sem o formalismo e elitismo das
práticas literárias vigentes ao valorizar um espaço na periferia em que se permite viver a literatura.
REFERÊNCIAS
BIAR, Liana de Andrade; ORTON, Naomi; BASTOS, Liliana Cabral. A pesquisa brasileira em análise de narrativa em tempos de “pós-verdade”. Linguagem em (Dis)curso – LemD, Tubarão, SC, v. 21, n. 2, p. 231-251, maio/ago., 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ld/a/q9Dd3hzKnMCTTQfxRGsZ9Dd/. Acesso em 30 out. 2024.
CANDIDO, Antônio. O Direito à Literatura. In: CANDIDO, Antônio. Vários Escritos. São Paulo: Duas cidades; Ouro sobre azul, 1988. p. 169 – 191.
COSSON, Rildo. Letramento Literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2014.
MAGELLA, Jonatan. Projeto ALEATÓRIOS: Evento literário na Baixada Fluminense promove o gênero conto. [Entrevista concedida a] César Manzolillo. ArtCult, 28 fev.2020. Disponível em https://artecult.com/projetoaleatorios/. Acesso em: 10 dez. 2024.
MAGELLA, Jonatan; KUERQUES, Thiago. Quem Somos. Contos Aleatórios, 2024. Disponível em: https://contosaleatorios.com.br/quem-somos/. Acesso em: 16 nov. 2024.
MOITA LOPES, LP. Uma linguística aplicada mestiça e ideológica: Interrogando o campo como linguista aplicado. In: MOITA LOPES, LP (Org.) Por uma Lingüística Aplicada Indisciplinar. São Paulo: Parábola Editorial, 2006. p.85-107
MOTA, M. O.; BIAR, L. de A.; RAMOS, M. E. A implementação do Programa de Alfabetização na Idade Certa no Estado do Ceará. Revista de Estudios Teóricos y Epistemológicos en Política Educativa, [S. l.], v. 4, p. 1–17, 2019. Disponível em: https://revistas.uepg.br/index.php/retepe/article/view/12967. Acesso em: 30 out. 2024.





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