Professor Fossivaldo estava sentado na areia da praia com baldinhos e pás, como uma criança, construindo seu castelinho de areia. Aproveitou os rastros das rodas de algum caminhão para recolher aqueles montes de areia. Era preciso esmero na fundação. Socou bem a areia úmida no baldinho, enquanto lembrava do primeiro ano do ensino médio. Já havia escolhido Química. Acreditou que seria importante decorar toda a tabela periódica, com peso, massa atômica e distribuição eletrônica de cada elemento. Não teve dificuldades ao ingressar na faculdade. Por incrível que parecesse, nenhum dos colegas compreendia como ele conseguira decorar a tabela periódica. Mas aquela besteirinha tornou todo exercício químico simples dali por diante. Química orgânica? Moleza. Visualizava mais facilmente a ligação dos quatro elétrons da última camada eletrônica do carbono do que qualquer colega… até mesmo do que alguns professores.
Estava lembrando da formatura quando concluiu a última torre do castelo. Uma verdadeira obra de arte.
O caminhão que deixara o rastro retornou. O motorista desceu e pediu que saísse, pois precisava recolher um pouco da areia da praia.
Professor Fossivaldo franziu o sobrolho:
– Você quer recolher areia da praia? Isso não é crime ambiental? – Indagou.
– Amigo – contemporizou o motorista – só conduzo o caminhão. Se tem alguma reclamação a fazer, vá falar com o Sargento Marreta, que é aquele homem de óculos escuros olhando pra gente ali na beirada da rua.
Fossivaldo olhou e teve receio.
Mas, àquela altura, já havia uma pequena multidão diante do castelo do professor. Uma mocinha filmava o castelo, o motorista e Fossivaldo.
Lá do meio-fio, Sargento Marreta assoviou e fez sinal chamando o motorista.
O motorista se foi e Professor Fossivaldo seguiu absorto nos pequenos detalhes do castelo de areia. Estava lembrando das dificuldades que teve após se formar quando veio a ventania. Em menos de cinco minutos, sob o olhar atônito da pequena multidão, a bela escultura transformou-se em um pequeno monte de areia. As pessoas à sua volta ficaram olhando penalizadas. Como os amigos mais próximos ficaram quando, após a faculdade, arranjou um trabalho em uma padaria. Pelo menos dava para pagar as contas.
Enquanto estivera construindo o castelo, separara conchas que ia encontrando. Havia cerca de quinze quilos delas. Levou-as para o meio-fio e as triturou com uma pedra. Depois, comprou uma garrafa de refrigerante e um pão. Esfarelou o pão junto com o pó das conchas, misturou o refrigerante e levou tudo para o monte de areia do castelo. A cada balde de areia juntava um pouco da sua argamassa. Na verdade, um ótimo cimento. Em mais uma hora, seu belo castelo estava novamente erguido e agora exalava um brilho marmóreo, causado pelo cimento das conchas.
Lá no meio-fio, Sargento Marreta conversava com outros sujeitos tão mal-encarados quanto ele.
Aí veio a ventania. Ventania, não. Vendaval. Os fãs que cercavam o castelo corriam atrás das suas toalhas levadas pelo vento. O vendaval levou apenas três minutos. Findo esse tempo, já não havia mais a pequena multidão. O castelo seguia de pé, incólume, emanando seu brilho marmóreo. O caminhão encostou de ré e roçou a roda na obra de arte, que não perdeu nem um grão de areia e alguns homens encheram a caçamba, usando pás na areia ao lado do castelo.
Só professor Fossivaldo não estava mais lá.





Esse conto, na minha visão, é uma reflexão interessante sobre a perseverança, a capacidade de aprender com as dificuldades e a busca por caminhos alternativos diante dos obstáculos. A trajetória do professor Fossivaldo mostra que o conhecimento adquirido ao longo da vida pode ser uma ferramenta importante, mas nem sempre é suficiente para garantir o sucesso profissional ou a realização pessoal. O que mais chama a atenção é sua capacidade de reconstruir o castelo depois que a ventania o destrói, utilizando os recursos disponíveis para encontrar uma nova solução. No entanto, o final traz uma reflexão ainda mais profunda: mesmo depois de superar as dificuldades e construir algo resistente, ele desaparece, enquanto outras pessoas se aproveitam de sua obra. O conto também parece fazer uma crítica à injustiça social, à corrupção e à exploração, mostrando que o esforço individual nem sempre é suficiente quando se está diante de estruturas que favorecem alguns em detrimento de outros. É uma narrativa que nos faz pensar sobre a importância da persistência, mas também sobre os limites dessa perseverança em uma sociedade na qual nem sempre o mérito e a competência são reconhecidos.